BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/03/2019
Chico Mão de Seda

A música brasileira e, especialmente a potiguar, está de luto com a morte do baixista Chico Guedes, que fez história por aqui nos anos 70 com o mítico grupo Impacto Cinco. Era considerado um dos grandes baixistas do país, acompanhou Geraldo Azevedo no início da carreira e estava há anos com Zé Ramalho.

Francisco Canindé Guedes Cavalcanti foi meu colega da geração 1959 (completou 60 anos em fevereiro). Convivemos durante o ginásio na escola estadual Winston Churchill no início dos anos 70. Testemunhei o processo black power em sua cabeça quando cabelos longos se tornaram rito de passagem.

Quando Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Led Zeppelin já haviam me invadido os sentidos, Chico me apresentou o LP Pet Sounds, da banda americana The Beach Boys. Seu encantamento nem era com o grupo, mas com a baixista convidada pelo líder Brian Wilson, a então balzaquiana Carol Kaye.

Kaye foi o ponto inicial que desencadeou o talento virtuoso de Chico pela vida afora. Ninguém talvez tenha colocado tanto arranjos em canções - e composto tantas - como a baixista que segue trabalhando aos 84 anos. Anos depois, baixista consagrado no Brasil, ele deu o "Método Kaye" para o amigo Babal.

Chico e Babal foram parceiros em várias canções, tendo quatro delas gravadas no primeiro disco do autor do clássico "Avenida Dez". Nos anos de gazeta, quando íamos ouvir rock na loja Discol, ele discorria sobre as técnicas do beatle George Harrison e do baixista Davey Rimmer (do Uriah Heep), que ele curtia.

Hoje cedo, assim que foi confirmada sua morte, o cantor Zé Ramalho postou nas redes sociais: "Comunico a todos os fãs o falecimento do baixista da minha banda... Chico era amigo fiel, honesto e músico dotado de alta técnica e virtuose. Foi um privilégio tê-lo comigo em tantas passagens das nossas vidas".

Bateu saudade da nossa juventude, lembranças claras dos seus primeiros sonhos musicais, os primeiros acordes. Viveu do seu talento, de uma técnica refinada que lhe abriu portas após a fase do Flor de Cactus, quando Geraldo Azevedo o levou pelos palcos do Brasil e a lua se levantou em cinemascope.

Partiu o músico da mão de seda e do coração de linho. Um desses artistas que conseguem fazer da vida uma aventura além desse xarope que agora nos invade os ouvidos e os sentidos. Adeus, Chico Guedes, valeu ter te encontrado lá nos tempos de sonhos e delírios juvenis. A gente segue, tocando o mesmo disco.