BLOG DO ALEX MEDEIROS

28/03/2019
O vestuário de David Bowie

A primeira vez que vi um homem vestindo uma calça vermelha foi no começo dos anos 70, numa imagem do rei Roberto Carlos que mais parecia uma alegoria da escola de samba Mangueira. A camisa era verde limão. Roberto iniciara aquela fase dos cabelos longos, do medalhão e sapato cavalo de aço.

A rebeldia inerente à idade e ao momento cultural do País já instalara em mim, além da cabeleira e gosto por rock "n" roll, uns surtos de iconoclastia que eu alimentava com aversão à autoridade escolar, às religiões e à seleção brasileira, então uma unanimidade nacional após a conquista da Copa 1970.

Aquele Roberto Carlos pós Jovem Guarda já não era referência de transgressão para minha geração, de modo que sua calça vermelha não gerou rasgos de influência. Mas numa certa noite de domingo, o então novo programa da TV Globo, Fantástico O Show da Vida, surgiu outra calça rubra.

Era uma matéria sobre o cantor inglês David Bowie, sobre um novo disco - creio que o LP Diamond Dogs - e sua postura irreverente, como um cara sozinho incorporando o grupo brasileiro Secos & Molhados, que estava na crista da onda naqueles dias. Dessa vez, a calça vermelha atraiu meu olhar.

Na reprodução que eu tentava fazer do psicodelismo no mundo pós Woodstock, aquela calça era o que faltava complementando o visual: camisa tingida com círculos irregulares brancos, tamanco de madeira, cordões coloridos no pulso, cinto de tecido, anel de caveira e cabelos nos ombros.

Na minha legião de ídolos do universo pop, Bowie não existia musicalmente. Adotei a cor da calça, mas levei anos para curtir algumas das suas canções. Quando mudei do bairro das Quintas para a Candelária, em 1975, fiquei algum tempo sem a música do camaleão britânico. Ouvi um disco na beira de 1980.

O título gigante do disco de 1972, "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", lembrava a lombra de Sgt Peppers e remetia às histórias em quadrinhos. Depois conheci outros LPs e hoje guardo "Aladdin Shane" (1973), Pin Ups (mesmo ano), Low (1977) e Black Tie White Noise (1993).

Hoje cedo, navegando em sites ingleses, dou de cara com uma matéria envolvendo a figura saudosa do grande artista do pop rock e do glam rock. Anunciando mais um dos tantos tributos que não param desde aquele janeiro de 2016 quando ele se foi na nave imaginária do anti-herói Ziggy Stardust.

A lendária marca de calçados e roupas, Vans, criada para vestir surfistas e skatistas, decidiu lançar uma coleção inspirada na performance fashion e comportamental de Bowie, como já fizera em relação ao pintor holandês Van Gogh e à banda inglesa Led Zeppelin. Bowie inspirou quatro modelos de tênis.

O Duque Branco do rock é homenageado com os modelos "Era", "Slip-On 47 V DX", "Sk8-Hi" e "Old Skool", onde a estética e os logotipos são baseados nos discos "Aladdin Shane", "Space Oddity" e "Hunky Dory". Vou comprar um par de tênis, mergulhar num vórtice ciclônico, e entregar para um garoto de calças vermelhas ali em 1974.

Aproveito e cumprimento Médici e Geisel.