BLOG DO ALEX MEDEIROS

08/04/2019
O trovador do Mucuripe

O cantor Raimundo Fagner, que em outubro completará 70 anos, ganhou uma biografia escrita pela jornalista Regina Echeverria, a mesma que em 1985 escreveu a de Elis Regina, em 1997 a de Cazuza, em 2006 as de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e em 2014 contou a história da Princesa Isabel.

Na sexta-feira, recebi do potiguar Wilton Bezerra (um grande amigo do cantor e proprietário do bar Me Leve, decorado em homenagem ao artista) dezenas de fotos da noite de autógrafos, no Rio. De manhã cedo, Fagner tinha sido o motivo da entrevista diária que eu e Jener Tinoco fazemos na Rádio Cidade.

Ao ver as imagens e a capa do livro (da Editora Agir, 440 páginas), muitos flashes da minha juventude espocaram nas paredes da memória, reeditando momentos importantes com as primeiras canções na voz de Fagner como trilha sonora de uma vida real que tinha uma aura mítica de cinema e de romances.

Era começo dos anos 70, minha geração no auge da adolescência experimentando as primeiras transgressões, estimulada pelo rock ‘n' roll e pelas letras rebeldes e lisérgicas de uma MPB deflorada na Tropicália. Aí as ondas do rádio foram invadidas com Mucuripe, Canteiros, Último Pau de Arara.

As canções de Fagner começaram a ganhar espaço pouco tempo após sua saída de Fortaleza para Brasília, em 1971, quando venceu um festival universitário com Mucuripe, poema que Belchior declamava nos bares alencarinos e que ele, Fagner, deu uma dimensão de cancioneiro universal.

Aquela voz meio anasalada, num tom de violeiro, entre choro e grito, mas essencialmente afinada, foi como uma catarse em ouvidos acostumados com a musicalidade convencional dos cantores de então. E havia também a estampa de andarilho latino, baladeiro londrino, mistura de Bob Dylan e Nick Drake.

Na Avenida Deodoro, em frente ao Diário de Natal, tinha o terreno onde bem depois se ergueria o Edifício Chácara 402. Eu nem tinha sequer vinte anos de amor, era apenas um projeto de rapaz, cabelos enormes, calça boca-sino e uma surrada camiseta. Foi ali, no Circo da Cultura, que vi Fagner e sua trupe.

Acho que achei o guitarrista Robertinho de Recife mais raquítico do que eu, mesmo sendo um monstro nos solos, como na canção Bodas, de Milton Nascimento e que acho jamais gravada por Fagner. Não havia mais do que duzentas almas perdidas naquela noite do trovador de Mucuripe em Natal.

Nem bem deixou seu Cariri, o cantor parou e disparou noutros campos, alcançando um sucesso que parecia uma força da natureza operando em seu repertório que estourava uma música atrás da outra. Incontáveis foram as vezes que fiquei rouco cantando no banheiro o segundo LP, Ave Noturna.

Cheguei nos 18 anos brincando de imitar a voz do cara, berrando nas esquinas da Candelária, tentando acertar as notas nos acordes do violão de Carlinhos Moreno, o pequeno craque de basquete que se tornaria um gigante instrumentista. A imitação bem que serviu para atrair alguma atenção feminina.

Nunca estive só no consumo de tantas canções, motivos de roedeiras, alegrias e também de paixões, como a dos então adolescentes Joacy Mafra e Ana Teresa (casados para sempre), que ganharam de presente de namoro o poema "Fagnésia", um recorte de versos de dezenas de músicas do ídolo.

A música de Fagner, seu repertório monumental, me acompanhou pelos anos e chegou na minha vida adulta, acompanhando bebedeiras e dando coragem para serenatas malucas, que os colegas Carlos Magno e Alexandre Mulatinho colaboraram com a cumplicidade que só a cerveja e a madrugada permitem.

A biografia de Raimundo Fagner Cândido Lopes sai em boa hora, nesse tempo de maturidade humana e artística, consagrado como um dos maiores nomes da música brasileira. Sua arte o faz intocável frente a qualquer crítica emulada por sectarismos, é um ícone do Brasil, como Roberto, Chico, Gil e Caetano.

E, além de tudo, é um campeão de admiradores em Natal, arrastando multidões em seus shows. Desafio qualquer outra capital nordestina, exceto Fortaleza, obvio, a demonstrar mais carinho por ele. Ontem ouvi Fagner, voz e violão, numa gravação de celular, borbulhando meio século de amor.