BLOG DO ALEX MEDEIROS

15/04/2019
Meus olhos ardem por Paris

"Cinzas caem sobre nós". Assim estampou o site do jornal Le Fígaro, nos primeiros minutos em que o fogo ergueu suas labaredas no céu de Paris. A notícia já corria o mundo, levando no seu rastro uma tragédia para marcar para sempre a história da humanidade, a nossa história, a partir do século X.

A Catedral de Notre Dame, um dos patrimônios mais esplendorosos da Europa, marco da arquitetura, templo sagrado para os católicos, ponto turístico de culto para todos os povos, queimando diante dos nossos olhos estáticos na terrível imagem da TV. Um dia para não mais esquecer, um dia de estupefação.

Sei o peso da perda de vidas humanas no atentado que derrubou as Torres Gêmeas de Nova York, mas não consigo controlar o sentimento de entender como maior tragédia para a história o incêndio de Notre Dame. Nenhuma vida perdida no fogo, mas milhões de vidas atingidas pela sua representação.

Os milhares de mortos no WTC em 2001 compõem o cenário tenebroso da maior tragédia da segunda metade do século XX, mas as chamas engolindo parte substancial de Notre Dame é uma enorme tragédia num período de vários séculos, unindo os muitos significados nas milhões de visitas ali.

Era minha região preferida de Paris, em especial pela lateral com a velha livraria Shakespeare and Company, onde por vezes me plantei na calçada observando turistas flanando entre a "Ile de la Cité" e "Ile de Saint-Louis". Fiz as primeiras fotos em sua fachada, nas gárgulas, profetas e evangelistas.

Entrar em Paris, para mim, se repete um mesmo ritual: depois de chegar ao hotel, a primeira visita é a livraria fundada há exatos 100 anos pela escritora e editora americana Sylvia Beach. Uma sensação indescritível aquela calçada diante da grandiosidade arquitetônica da catedral, isso sim é uma imersão.

Na primeira vez que adentrei suas portas, misturado a centenas de japoneses, coreanos, russos, poloneses, brasileiros, consegui cegar os olhares de vigília e fiz fotos dos vitrais que resistiram aos bombardeios nazistas. A narrativa é arrepiante: padres e fiéis enterrando arte em pedaços para recompor depois.

O fogo que consumiu onze séculos impôs ao mundo, e não só à França, uma perda irreparável. Impossível não ter a mente e o peito invadidos por uma angustiante sensação de estar no meio das chamas. E não há nada de catolicismo ou cristianismo nesta tristeza, mas de culto à simbologia da arte.

É difícil e quase impossível elencar, por exemplo, os dez maiores símbolos de Paris, ela própria um símbolo da trajetória humana. Mas, certamente, Notre Dame divide com a Torre Eiffel e com o Museu do Louvre os desejos de consumo de onze entre dez turistas que optam pela França como destino.

Imagino-me lá de novo, na porta da Shakespeare and Company, triste pelo fogo, tonto de fumaça, delirando na dor de todos. Por mim passam em pânico, com baldes d'água, os fantasmas de Josephine Baker, Hemingway, James Joyce, Ezra Pound, Orwell, John dos Passos, Gertrude Stein, T. S. Eliot e uma legião de estrangeiros que, como nós todos, querem Paris em festa sempre.