BLOG DO ALEX MEDEIROS

30/04/2019
Woodstock seja aqui

As comemorações dos 50 anos do festival de Woodstock, ocorrido em agosto de 1969, geraram muita antecipação na imprensa, mas ao mesmo tempo diversos problemas financeiros que acabaram inviabilizando a iniciativa de Michael Lang, o promotor do festival original na cidade de Bethel, EUA.

Após ficar sabendo há algumas semanas que vários artistas convidados não estavam recebendo os cachês prometidos, e diante da lentidão que atrasava a venda de ingressos, a Billboard e o jornal The New York Times relataram no fim de semana que a festa que pretendia lembrar o encontro hippie furou.

O evento seria realizado entre os dias 16 e 18 de agosto, em Watkins Glen, Nova York, repetindo três dias do show histórico e deixando fora apenas o dia 15, data da abertura naqueles dias de cinquenta anos atrás. Entre os artistas convidados estava um remanescente de 69: o guitarrista Carlos Santana.

Michael Lang chamou para o remake Jay-Z, Chance the Rapper, The Killers, Miley Cyrus e Black Keys, entre outros já devidamente divulgados num cartaz que imitava a estrutura gráfica do velho cartaz do primeiro festival. Além da má gestão, convém alertar que seria difícil repetir a história com tal elenco, né?

O festival de Woodstock de 1969 foi um ponto nevrálgico na curva perigosa da conjuntura política e comportamental daquela década de conflitos, rupturas e descobertas. Não é fácil reproduzir agora a catarse daqueles quatro dias em que o amor livre, as notas soltas e a sincronia cósmica imperava no terreno.

Não que tenha sido o primeiro festival do gênero, posto que Monterrey Pop já havia sacudido a Califórnia dois anos antes, apresentando ao mundo uma dupla que faria disparar os batimentos cardíacos dos amantes do rock: Jimi Hendrix e Janis Joplin. Na produção tinha até os Beatles e os Beach Boys.

Mas em 69 quando a imprensa de Nova York percebeu uma espécie de êxodo, com milhares de jovens coloridos e despenteados seguindo em direção à cidade de Bethel, centenas de borboletas bateram as asas no outro lado do mundo, desencadeando o que seria uma revolução musical nunca visto.

Entre dezenas de cantores e músicos, estavam no cartaz The Who, Janis Joplin, Joe Cocker, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Creedence, Grateful Dead, Crosby, Stills, Nash & Young e Santana. Perceba só na amostragem a abissal diferença com o cast que Lang esperava festejar o cinquentenário da coisa.

Woodstock foi o destampar da chaleira, a fissura nuclear no espaço-tempo da música universal, um epicentro contracultural que logo espalhou-se pelo planeta, como a onda de poeira incendiária de um meteoro alterando a geografia humana da Terra. Milhares de cidades logo inventaram festivais.

Nos casulos que multiplicavam filhotes de Woodstock, entre aquele 1969 e os anos que avançaram pela década seguinte, até Natal se deixou influenciar, demonstrando sua tendência histórica de interagir com os novos movimentos, como já fizera muitos anos antes com a poesia e os manifestos artísticos.

Apenas quatro anos depois do gigantesco festival em Nova York, o microcosmo do estadiozinho Juvenal Lamartine, no Tirol, abria seu pequeno portão para receber no gramado em que brilharam Jorginho, Véscio, Alberí e Marinho Chagas, uma centena de cabeludos para o Festival do Sol. Era a geração que seria espelho e lanterna da minha. Natal também era Woodstock.