BLOG DO ALEX MEDEIROS

05/05/2019
A Europa contaminada pelo extremismo

A Europa se encontra num final de um ciclo político. Os sismógrafos dos especialistas detectam movimentos de placas tectônicas ideológicas que se deslocam dos partidos tradicionais, sinalizando que as eleições europeias de 26 de maio serão as primeiras em que o eleitorado votará em peso nos partidos populistas, tanto de direita quanto de esquerda.

Um estudo publicado na revista alemã Der Spiegel, baseado em dados do Banco de Dados Eleitorais de Partidos e Formações de Governos do Mundo, da Universidade de Bremen, do Instituto de Pesquisa de Ciências Sociais de Amsterdã, mostrou claramente o equilíbrio de forças entre os partidos antissistema e os partidos do sistema (pra não utilizar outra terminologia), porque a primeira dificuldade para realizar a radiografia do extremismo na Europa reside precisamente nos conceitos.

"Há duas grandes linhas", disse Ruth Wodak, especialista em populismo da Universidade de Lancaster, "a de direita, que prevalece no norte e centro da Europa e que ataca as elites em questões nacionalistas e morais, e a de esquerda, mais presente no sul, que combate o capitalismo e a globalização quando critica o establishment e o culpa pela crise".

O estudo que combina resultados nacionais com os regionais e municipais, detecta também um populismo de centro, muito avançado nos países do leste e sudeste europeus, como Bulgária, Lituânia e Itália, onde partidos tradicionalmente liberais sucumbiram às características e práticas do pensamento populista.

Ninguém quer mais aquela defesa retórica de um povo teoricamente virtuoso cuja vontade interpreta o partido, a âncora mítica de um passado de crítica radical à democracia representativa sem apresentar alternativas. A alternativa agora é a reação radical contra tudo que represente ameaça à zona de conforto do cidadão europeu, como estrangeiros e migrantes islâmicos ou africanos.

Há também uma rejeição clara à velha dicotomia esquerda/direita substituída por um discurso simplório de influência religiosa que prega o alto e o baixo como lados antagônicos, numa verticalização despolitizada e estéril que se assemelha ao momento político do Brasil dividido entre fanáticos do marxismo e do militarismo.

Os dois lados são incapazes de construir consenso com os chamados partidos históricos, contaminados pelos anos de fracassos econômicos e ambientais. As chamadas "europeias de maio" já estão totalmente influenciadas pelo extremismo de direita e de esquerda. É o que mostram as pesquisas.