BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/05/2019
O fim da dicotomia esquerda versus direita

As eleições europeias realizadas no domingo sacudiram o establishment partidário das grandes nações como Inglaterra, Alemanha, Itália e França. O avanço dos radicais confirmou o início o desaparecimento da dicotomia clássica esquerda versus direita.

Em editorial, o jornal Le Monde, por exemplo, afirmou que o crescimento da extrema-direita no país estabeleceu no antagonismo Emmanuel Macron-Marie Le Pen um protagonismo que substitui socialistas e conservadores, ambientalistas e liberais.

Segundo o Le Monde, uma profunda recomposição política está em ação e centra-se nas questões, dominadas por uma identidade tripla, crise social, questão ecológica e fadiga nas estruturas partidárias.

O texto do maior jornal francês é duro e até catastrófico, ao dizer que "o velho mundo entra em colapso, surge outro, criando a cada consulta um terremoto de intensidade variável".

O duelo Macron-Le Pen praticamente jogou no limbo as duas forças políticas que se alternaram durante a chamada Quinta República. Os votos do Partido Socialista e do Republicano somados são pouco mais de 15%. Para o Le Monde, eles já não pesam nada.

As eleições provocaram surpresas até aonde os analistas não imaginavam. Na Espanha, por exemplo, onde historicamente a esquerda é forte, o avanço de propostas fora da curva das tradições assusta. O comentarista político Cesar Calderón escreveu no jornal Público o artigo "Madrid é o quebra-mar das esquerdas".

O motivo do título não é uma vitória da extrema-direita, apesar do avanço dos radicais do Vox, mas a desidratação da velha esquerda socialista, centrada nas cartilhas de Gramsci e agora sendo substituída nas cadeiras de uma nova esquerda chefiada por Iñigo Errejón, jovem fundador dos verdes e agora combatendo o capitalismo sem ensinamentos de Marx ou Lênin.

Em Portugal, o jornalista Ruben Martins escreveu que o PS ganhou sem subir muito, e que foram claras as derrotas dos partidos tradicionais como PSD, CDS e PCP. Ele diz que no Parlamento Europeu, em Bruxelas, pela primeira vez não haverá uma maioria de conservadores e socialistas.

Na Europa de tantos conflitos culturais, étnicos, ecológicos e religiosos, um novo mundo se levanta - como dito no editorial do Le Monde - por sobre as ruínas da velha política e dos preceitos ideológicos seguidos pelas gerações da metade do século passado.