BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/05/2019
Uma segunda-feira triste

A notícia mais triste dessa segunda-feira, 27 de maio, me chegou antes do Sol acordar, veio ligeira pelos raios digitais do WhatsApp. Como faço nos últimos meses, acesso o celular entre três e quatro horas da madrugada, para pegar as manchetes dos jornais e replicar no Bom Dia Cidade, da 94 FM.

Antes das capas dos jornais, uma leve passada no zap, onde se acumulam as postagens que não consigo ler entre o sono e o despertar. E lá estava ela, a tenebrosa mensagem reproduzida por três ou quatro amigos, todos obviamente sabedores de que o triste fato tinha meu interesse todo particular.

A morte de Manoel Guedes, meu velho amigo proprietário do tradicional Bar Tijibu, na Candelária. Tratado por todos os muitos clientes como Seu Guedes, mas para mim apenas Guedes, na intimidade das amizades que quebram protocolos. O negócio dele era o meu lazer, e que ele abrilhantava.

Eu vi Guedes criar seus filhos com seu empreendimento e seu talento culinário, aquele talento instintivo do povo do sertão com doutorado em autodidatismo; fui testemunha ocular e alcóolica do crescimento do bar e dos seus meninos, que herdaram dele a cozinha e a camaradagem com os clientes diários.

Guedes é parte integrante, jamais descartável, da minha militância boêmia, da minha paixão por resenhas diurnas nas calçadas em torno de uma cerveja gelada. Virei freguês do Tijibu já nos primeiros anos em que foi aberto, e depois de alguns anos intermitentes, voltei à assiduidade de antigo vizinho.

Sabedor da minha mania de tomar o primeiro gole antes do meio-dia, dizia às vezes: "quando der vontade de tomar sua cerveja mais cedo, a hora que quiser, é só ligar que eu abro". Por vezes, cheguei pouco depois das 11h da matina e ele me recebia carinhosamente, e disposto a papear sobre futebol.

Eu tinha nele uma enciclopédia a consultar quando o assunto era o futebol praticado em Natal entre os anos 1950 e 1970. Um craque do futebol de salão daqueles tempos, conservava na memória grandes jogos no Juvenal Lamartine, causos de jogadores que as novas gerações sequer imaginam a existência.

Algumas notas que publiquei em jornal ou internet sobre o passado de ABC, América, Alecrim e os demais times que atuaram no velho estadinho do Tirol, foram resgatadas no arquivo de um Guedes vivo e ativo na função de retransmissor da história da nossa província tantas vezes esquecida.

A calçada do Tijibu continuará a ser uma extensão do meu trabalho, onde por vezes produzi meus textos na companhia de Guedes e da cerveja gelada. Sem ele vai parecer um vazio sem fim, mas também sei que a lembrança será uma canalização da sua presença, ali do lado, contando uma piada ou resgatando uma história espetacular da vida que soube viver.

Das tantas fotos que tenho no local, publico uma com os amigos Hildo Oliveira e Tim Kawasaki, dois que sempre chegavam ao mesmo tempo que eu para o bom papo, a Heineken geladérrima, a carapeba e a paçoca, quatro itens que o bar de Guedes garante.

Vai meu amigo, vai ser craque nos campos infinitos.