BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/06/2019
As velhas ilusões da mídia

Mais uma vez a realidade do futebol brasileiro atropelou as ilusões vendidas pela mídia esportiva. Após a vitória na primeira partida contra a frágil Jamaica, a seleção brasileira feminina perdeu de virada para a seleção da Austrália, tomando três gols depois de estar vencendo por dois a zero.

O resultado foi um balde de água gelada no pachequismo da TV Globo, que vem tentando fazer o torcedor anexar o futebol feminino ao departamento de fanatismo do coração verde e amarelo. Para induzir o emocional no povo, os narradores e comentaristas aceitam dispensar a visão racional dos fatos.

Na busca de um título mundial inédito das garotas, a mídia disfarça o fracasso dos rapazes que está prestes a completar duas décadas. Exagera no oba-oba da "geração Marta" como se estivesse falando de uma boa nova e não de um grupo que sempre naufraga nas copas, apesar dos talentos individuais.

A seleção feminina enfrentou pela vigésima vez as rivais australianas e engoliu a décima derrota. O jogo pela Copa do Mundo que ocorre na França foi um domínio quase absoluto da posse de bola pelas "matildas". O comentarista global repetia a todo instante que o ritmo da Austrália reduziria e o Brasil, então, passaria a comandar o jogo.

Os dois gols brasileiros que não foram frutos de toque de bola e nem por efeito tático - um pênalti detectado pelo VAR e uma cabeçada tradicional de Cristiane - ajudaram a TV a manter o roteiro efusivo e patriótico. Quando a Austrália empatou e virou, nenhum comentarista foi capaz de explicar a obviedade da fragilidade da seleção.

O pachequismo tem método na cegueira, sempre mitificando ou fulanizando o clima que busca impor ao torcedor sedento de heróis. O mesmo comentarista que anunciava o cansaço por vir das adversárias é o mesmo que evita mostrar a média de idade da seleção. Se enaltece jogadoras em declínio cronológico na contramão das outras seleções que revelam talentos precoces.

A goleira Bárbara tem 31 anos, a zagueira Mônica tem 32, a lateral esquerda Tamires tem 31, a volante Thaisa tem 30, a artilheira Cristiane tem 34, a craque Marta tem 33 e a referência Formiga tem, pasmem, 41. Seria jovem para compor a banda Rolling Stones, nunca para jogar futebol. O envelhecimento da seleção é proporcional aos conceitos de futebol do técnico Vadão.

Os dirigentes do futebol feminino brasileiro e os narradores, comentaristas e redatores da mídia pacheca (aquela que Paulo Mendes Campos dizia não ter chegado ainda na Feira de Arte Moderna), precisam decorar a frase do líder comunista Lênin que deu origem ao movimento musical liderado nos anos 60 por Roberto Carlos: "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

Em novembro de 2005, eu estava passeando pela Espanha com o empresário Carlos Rosado e o prefeito de Macaíba Fernando Cunha. No dia 19 de novembro, um sábado, resolvemos assistir o clássico Real Madrid e Barcelona, devidamente saboreando iguarias locais e um bom chopp gelado.

Estádio Santiago Bernabeu tomado em 90% do seu espaço pela fanática torcida merengue. A não menos enlouquecida torcida azul grená espremida num cantinho de arquibancada. O time da casa era a primeira geração "galáctica", com Zidane, Raul, David Beckham, Ronaldo Fenômeno, Iker Casillas, Sergio Ramos, Roberto Carlos e Michel Salgado.

O jogo começou e logo Ronaldinho Gaúcho começou a traçar adversários e dar lançamentos de oitenta jardas nos pés e peitos dos colegas. Era o primeiro clássico do garoto Lionel Messi, então com 18 anos, que aos 14 minutos traçou a defesa blanca e deixou Eto'o na cara do gol para abrir o placar.

No começo do segundo tempo, Ronaldinho humilhou e aumentou num golaço. Faltando pouco mais de dez minutos para acabar, o craque de 25 anos fez outro e fechou a tumba dos galácticos, apressando a demissão do técnico Luxemburgo. A torcida local assimilou o baque e aplaudiu Ronaldinho de pé.

Na saída do estádio, fiz uma pergunta para Rosado: "sabe o que é isso?". E eu mesmo respondi: "É juventude, somente". No Barça, Eto'o tinha 24 anos, Iniesta tinha 20, Xavi tinha 25 e Victor Valdés tinha 23. Os coroas do time eram Puyol e Deco, ambos com 27 anos.

Em futebol, juventude decide quase sempre. Por falta disso, quase sempre a "geração Marta" não serve para levantar audiência ou arquibancada. Porque existem comentaristas como o do jogo em tela, que apostava no cansaço das australianas, mas elas, contrariando-o, tinham mais fôlego. E mais jogo coletivo.