BLOG DO ALEX MEDEIROS

07/07/2019
Partiu o astro solitário

O leitor botafoguense que tenha vivido parte da infância e da adolescência entre meados dos anos 1970 e início dos anos 1980, certamente experimentou a fase supernova do time alvinegro carioca. Aquele instante posterior ao fim da era estelar de Garrincha, Didi, Nilton Santos, Gerson e Jairzinho.

No espaço cósmico uma supernova é o momento imediatamente posterior à morte de uma estrela, quando ela ainda emite um brilho intenso até se apagar de vez. No retângulo do futebol, o rescaldo do Glorioso no processo pós anos 60 acendeu fagulhas de esperanças com a geração do meia Mendonça.

Em 1975, eu estava deixando o bairro das Quintas para ir morar no novo conjunto habitacional Candelária, recém-construído e com as primeiras famílias chegando para ocupar suas casas brancas, apelidadas de "Santana do Pedregal", localidade da novela Ovelha Negra exibida na época pela TV Tupi.

Naquele ano Mendonça chegou no Fogão, um magrelo de apenas 19 anos, cabelos de hippie (similar aos de Marinho Chagas) e dotado de uma apurada técnica, um exímio driblador. Eu sonhava há sete anos com outro título carioca, vivendo das lembranças de 1968 com os craques em caixas de fósforos.

A presença de Marinho e Mendonça no time, uma espécie de ícones do rock n roll afinados com minhas fantasias de torcedor, reacenderam as perspectivas de ver de novo o Botafogo dar show no gramado do Maracanã. Os gols foram surgindo pelos pés e cabeça de Mendonça, mas sem resultar em títulos.

Eu circulava pelo novo bairro em busca de nova turma, identificando semelhantes alvinegros, Mendonça seguia fazendo belos gols, mas a taça não vinha ao final dos campeonatos. Passaram rápido 1975 e 1976 e aí perdemos Marinho para o Fluminense, a máquina tricolor formada por Francisco Horta.

Em pleno azeite da máquina do Flu, o Flamengo achou na lâmpada dos deuses do futebol o gênio Zico, magrelo como Mendonça e que daria à Gávea a alegria perdida para o Botafogo nos anos estelares de General Severiano. Meu desejo nunca foi tão só naqueles anos, restando os gols do nosso meia.

Mendonça foi o intervalo de brilho entre a geração de Jairzinho e Gerson e as gerações de Mauro Galvão e Túlio Maravilha. Não ganhou taças como todos, mas alimentou a paixão clubista com jogadas lindas e gols espetaculares.

O maior gol de todos, já histórico, diante de um Flamengo gigantesco que dominou o país e conquistou o mundo. Era 1981, 19 de abril, um domingo, campeonato brasileiro. O terceiro gol na vitória por 3 x 1 se eternizou na narração de Luciano do Vale, um gol pintado e bordado aos 43 do tempo final.

O ponta Edson, que havia entrado no lugar de Ziza, faz um longo cruzamento da direita para o meio da área. A Bola pousa suave no peito de Mendonça, que recebe o combate de um dos gênios do Mengão, o lateral Junior. Bola no chão, ele dá um drible desconcertante, inenarrável, coisa de boleiro de futsal.

Antes que Junior se desse conta do ocorrido, o craque solitário chuta de direita, num tiro diagonal indefensável para o mítico goleiro Raul. Era o terceiro gol, o segundo de Mendonça na partida que eliminaria o supertime de Zico e companhia.
Naquele tempo, ver Mendonça em ação era o que nos restava.

O drible humilhante em Junior foi batizado pela imprensa como "Baila Comigo", nome da novela das oito da TV Globo, que exibiria seu último capítulo no dia 26 de setembro de 1981, no dia em que o Botafogo venceria de novo o Flamengo, agora pelo carioca. Mendonça morreu sexta-feira, aos 63 anos.