BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/07/2019
Sempre é dia de rock

Jim Morrison, cujo túmulo em Paris visitei numa tarde fria, disse que se as portas da percepção forem abertas, as coisas irão surgir como realmente são: infinitas. Uma primeira janela se abriu pra mim em 1972, no primeiro contato com os discos de rock que meu irmão Graco levava pra casa, nas Quintas.

Aquele foi o ano da minha entrada no ginásio, moleque de 13 anos que já amava os Beatles e se encantou com as capas de LPs dos Rolling Stones que o mano pregava na parede do quarto, misturadas aos pôsteres de futebol e super-heróis. O rock ‘n' roll escancarando pra mim as portas da percepção.

Em 1975 um salto no tempo e no espaço da cidade, meus pais se mudam para o recém-criado conjunto habitacional na distante Zona Sul, Candelária, encrustado no alto de uma Prudente de Morais avermelhada de barro. Longe da vida mais agitada da cidade, os adolescentes locais logo se enturmam.

Entre tantas coisas comuns à faixa etária, o rock ganha grande espaço no meio do futebol, sinuca, xadrez, vôlei, basquete e tênis de mesa, além das sessões de cinema na TV, bem raras, aliás. As audições e discussões dos LPs viram uma constante nas esquinas, áreas e jardins. Aí surge a Esquina do Rock.

Na curva da Prudente de Morais com a Bento Gonçalves instala-se o clube a céu aberto, sob as leis de um estatuto emocional e de uma doutrina afetiva que convergiam os interesses num só. Éramos filhos do rock ‘n' roll, envoltos numa sinergia natural alimentada quase diariamente no culto aos discos em vinil.

A primeira geração de adolescentes da Candelária, unida por uma esquina atemporal, vive na prática a assertiva de Jim Morrison. Viajamos até hoje pela mesma porta da percepção que o rock nos impôs; nos reunimos no bairro de origem para rememorar a juventude e cultuar nossos discos, os de sempre.

Por esses dias, ao postar no nosso grupo de Whatsapp que tem o nome Esquina do Rock uma matéria sobre o filme que resgata o Festival de Águas Claras de 1975, mesmo ano da nossa chegada em Candelária, o confrade Junior Ataliba lançou a pergunta: qual a banda que te fez gostar de rock?

Todos os que estavam no ar se manifestaram de imediato, a partir do autor da pergunta que afirmou Led Zeppelin. Obviamente digitei Beatles, seguido por Múcio e Babal (este inclusive já tocava os Fab Four na época). Bebeco, uma enciclopédia do tema, discorreu sobre tudo, mas destacou a banda Yes.

João Maria Medeiros disparou Black Sabath, enquanto Marcus Vinícius citou The Sweet e lembrou a fase da banda alemã Kraftwerk, que teve o hit Radioactivity quase um hino da nossa esquina. Evaldo Gomes revelou as preferidas Pink Floyd e Led Zeppelin, lembrando que todos adorávamos Creedence.

Epitácio, nosso primeiro ministro da esquina, lançou nostalgia no papo invocando a importância de resgatar as imagens dos LPs debaixo do braço, a conversa sobre lançamentos nas lojas da Cidade Alta, me fazendo lembrar das capas grudadas na parede do quarto da morada anterior. Rock é isso.

Só ele faz as coisas se desenharem como realmente são, infinitas. Eternas como as canções e as nossas lembranças, que vão passando à frente, às gerações posteriores. Nesse Dia do Rock, meu amor incondicional a todas as bandas e artistas que entraram em minha porta.

Foram portadores de um ritmo que virou filosofia e comportamento, foram os carteiros que nos entregavam as músicas e as mensagens, como disse Bob Dylan, o absoluto.