BLOG DO ALEX MEDEIROS

20/08/2019
Mais uma vez... Tarantino

No novo e nono filme de Quentin Tarantino, o diretor mergulha na própria infância para imprimir um recorte da sua cidade Los Angeles no final dos anos 1960, oferecendo ao público um quadro carinhoso pintado com a sua saudade.

É a saudade do cinema em bons tempos de faroestes italianos, de heróis genéricos de James Bond, da cena periférica com os hippies em comunidades próximas, das baladas pop e do curto reinado da modelo e atriz Sharon Tate.

Nem precisa de tantas análises rebuscadas de intelecto cinéfilo, nem de críticas sobre questões técnicas da feitura cinematográfica. Tudo pode ser resumido numa declaração de amor de triplo endereço: a Sharon, à cidade e a 1969.

Como um adulto a brincar na visita emocional ao menino que já foi, Tarantino brinca com o passado de Hollywood e com a cena cultural da época reescrevendo parte da história com um devaneio em modo de licença poética.

E a releitura daquele tempo se situa principalmente em torno da Sharon Tate representada na atriz Margot Robbie, dimensionada na obra além do currículo real, num culto do diretor para o salvamento e perpetuação da bela mulher.

No meio de um caleidoscópio de referências aos anos da sua meninice em Los Angeles, Tarantino inseriu duas figuras fictícias e ao mesmo tempo protagonistas, o ator decadente Rick Dalton e seu dublê bad man Cliff Booth.

Algumas semelhanças dos personagens de Leonardo DiCaprio com os astros do passado presentes no film, como Steve McQueen, Burt Reynolds e Clint Eastwood, podem não ser apenas coincidências na forma de homenageá-los.

DiCaprio e Pitt dominam o filme, comprovando mais uma vez de forma soberba a realidade de dois monstros que até tão pouco tempo eram retratos das novas gerações de uma Hollywood reinventada por figuras como ele, Tarantino.

Aliás, o Tarantino clássico dos banhos de sangue demora a mostrar as garras até o final. Antes, porém, é uma narrativa doce e hilária da Los Angeles de sexo, drogas e rock ‘n' roll, num cenário multicor e uma saudosista trilha sonora.

Tem razão os familiares de Bruce Lee na irritação pelas cenas da briga com o dublê Cliff Booth. O dragão chinês tomando uma surra humilhante de um ex-soldado não pode ser, de fato, uma maneira apropriada de ser referenciado.

E para eternizar Sharon Tate e nos remeter aos filmes icônicos Pulp Fiction e Kill Bill, a pancadaria se instala, o sangue jorra e a violência característica impera de forma bruta e cínica, perfeita para queixumes de pacifistas e feministas.

Impossível não lembrar Uma Thurman diante daquilo e da loira grávida dentro da camisa com número 17. E é a filha de Uma, no papel de uma flower child de Charlie Mason, que foge para depois testemunhar a história. Ou a versão.