BLOG DO ALEX MEDEIROS

23/08/2019
A casa de papel

De tudo que havia na casa que mais marcou minha infância, o que mais se destacava eram as coisas de papel. Minhas centenas de revistinhas, os pôsteres de rock do meu irmão nas paredes, os jornais de domingo de papai.

Os moldes de costuras feitos por mamãe nos sacos de pão, os meus álbuns de figurinhas com as duplicatas no chão para treinar jogo de bafo, os livros escolares com os de história e português mais folheados que os demais.

As cartilhas das minhas irmãs pequenas, que elas riscavam com lápis de cor, um pesado dicionário que meu irmão consultava e eu chamava de o livro de pedra, o álbum de fotografias da família que o tempo e o desleixo levaram.

Os recortes com a programação de cinema do Diário de Natal que sempre trazia uma imagem de um filme, as cartolinas que meu irmão transformava em diversos cartões natalinos com temáticas hippies, o Adoremus de mamãe.

As folhas de ofício que eu pegava no trabalho de papai para desenhar os autódromos da Fórmula Um, as edições da Revista do Esporte e da Placar onde recortava fotos dos craques para confeccionar times de caixa de fósforo.

Os saquinhos vazios de figurinhas para guardar duplicatas, os maços vazios de cigarros transformados em moeda corrente do bairro, os sacos de papelão grossos para cobrir latas vazias e tirar som de tambor durante o carnaval.

Os papeis de seda coloridos que mamãe e minha tia utilizavam para criar decoração natalina, os volantes da Loteria Esportiva que papai apostava, as folhinhas de calendário que ano a ano ocupavam uma parede da cozinha.

Os papeizinhos do jogo do bicho que papai tirava do bolso para conferir no final da tarde, as folhas de borrão que eu e meu irmão escrevíamos as tabelas de resultados e classificação das equipes de futebol com tampas de garrafas.

Os primeiros livros de filosofia e esoterismo que ele, meu mano, começou a acumular, os livretos com aventuras de cowboys e agentes do FBI que eu aprendi a consumir, os cadernos com capas de super-heróis do primário.

As revistas com fotonovelas de ação de Lucky Martin e Jacques Douglas, as primeiras leituras de Fernão Capelo Gaivota, O Pequeno Príncipe, Menino do Dedo Verde, Meu Pé de Laranja Lima, O Guarani e 20 Mil Léguas Submarinas.

As figurinhas lançadas pela indústria de massas Weston com as imagens dos jogadores de ABC, Alecrim, América e seleção brasileira que vinham nos pacotes de macarrão e biscoito, as cédulas e cartas do jogo Banco Imobiliário.

O barulho de encanto ao abrir os saquinhos com os bonequinhos do achocolatado Toddy, os deveres de casa feitos obrigatoriamente em folhas de papel almaço, as tirinhas finas de papel com meu nome enfiadas na caneta.

Os pedacinhos de papel com números de 2 a 11 nas apostas do autor do primeiro gol em jogos de futebol acompanhados pelo rádio, as caixas de camisa Guararapes e Nações Unidas para guardar documentos da família.

As capas de LPs pregadas na parede do meu quarto e do meu irmão, os encartes das revistas Cruzeiro e Fatos & Fotos com a seleção de 70, as tabelas da Copa do posto Shell, da Coca-Cola, da Antarctica e da Brahma.

Os santinhos com fotos de candidatos apanhados na passagem dos carros de som da campanha eleitoral, as bulas de remédio que mamãe guardava e não lia, as muitas folhas de caderno que meu irmão preenchia com poemas.

Os primeiros livros que emprestei da biblioteca Câmara Cascudo, os pequenos calendários com atrizes famosas, as minúsculas edições do Novo Testamento, os ingressos de filmes que eu guardava. Viver e lembrar, eis o meu papel.