BLOG DO ALEX MEDEIROS

05/09/2019
Cantando a lenda e o fato

Quando as novas gerações ouviram falar pela primeira vez o termo "crossover", a narrativa científica que insere num mesmo contexto elementos ou personagens de realidades e épocas diferentes, as velhas gerações nordestinas já tinham assimilado por hereditariedade cultural as misturas absurdas e exageradas que as cantorias e os folhetos de cordel produziram ao longo das décadas. Literatura popular com hibridez histórica e mitológica.

Os cantadores de improviso e os poetas do povo lançavam nos desafios figuras como os deuses gregos, heróis e imperadores romanos, personagens bíblicos, seres mágicos das fábulas, vultos da História tal qual Getúlio Vargas, Tiradentes, Lampião, Zumbi, Dom Pedro, Rui Barbosa, Câmara Cascudo, Tomé de Souza, ídolos das artes no nível de Luiz Gonzaga, Castro Alves, Olavo Bilac, Luís de Camões, astros do cinema, da televisão e do rádio.

A literatura de cordel produziu distopias antes do cinema de ficção científica, viajou no tempo antes do super-heróis dos quadrinhos, juntou figuras reais com personagens literários antes dos romances latinos de realismo fantástico.

Nas aventuras com cangaceiros enfrentando o diabo, com Jesus derrotando monstros de feitiçaria, com ícones do século XX contracenando com cavaleiros da Távola Redonda, a cultura popular sempre juntou as lendas com os fatos.

Quem viu o filme "O Homem que Matou o Facínora", obra de John Ford de 1961, recorda-se do senador Ransom Stoddard, interpretado por James Stewart, narrando seu passado ao jornalista Maxwell Scott (Carleton Young).

Ele conta que construiu sua vitoriosa carreira em cima de uma fraude, quando ganhou a glória de ter eliminado o bandido Liberty Valance (Lee Marvin), fato protagonizado por seu amigo Tom Doniphon, o personagem de John Wayne.

O grande momento do filme é quando o repórter, que vinha anotando toda a história do senador, rasga o caderninho e dispara a frase icônica: "Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda".

Tudo isso tem similaridade com um caso ocorrido há alguns anos, durante um festival de repentistas, no centenário Teatro Santa Isabel, no Recife. A casa estava lotada e com os melhores violeiros do Nordeste em disputada cantoria.

Entre juras de ter sido real e suspeitas de testemunhos fantasiosos, conta-se que havia gordo prêmio pecuniário para o cantador do melhor repente. Um júri composto por escritores e intelectuais era presidido por Ariano Suassuna.

Cantaram Dimas Batista, Louro do Pajeú, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Pinto do Monteiro, Mocinha da Passira, Louro Branco, João Furiba, Gato Preto, Geraldo Amâncio, Jô Patriota, Ivanildo Vila Nova, Zé Cardoso entre outros.

No momento do julgamento, Ariano resolveu comentar a cantoria de Dimas, afirmando que o gênero gemedeira apresentado não foi improviso, mas previamente escrito e decorado. Foi grande o murmúrio na plateia e no palco.

Dimas já havia guardado a viola no saco, olhou pra mesa do júri, onde estavam Patativa, Humberto Teixeira, Dom Hélder, Gilberto Freyre e Jackson do Pandeiro. Aí apanhou o instrumento do gênio de Alagoa Grande e tascou:

"Eu muito admiro o poeta de praça / que passa seis meses fazendo um sexteto / no fim de um ano termina um soneto / e quando ele acaba ainda fica sem graça / com tinta e papel o esboço ele traça / contando nos dedos pra metrificar/ que noites de sono ele perde a pensar / para produzir tão minguado produto / pois desses eu faço dois, três num minuto / cantando galope na beira do mar".

A palma comeu no centro. E não me pergunte se foi lenda ou se foi fato.