BLOG DO ALEX MEDEIROS

06/09/2019
El Gato Andrada

Das duas dezenas de times de caixas de fósforos que eu confeccionei entre 1969 e 1972, o mais cultuado, obviamente, era o Botafogo, único que tinha mais de onze fotos, contemplando quase o plantel inteiro. Os três goleiros daqueles anos, Ubirajara, Cao e Wendell, ganhavam espaço a cada duelo nas calçadas da Rua Mário Lira. Fazia o mesmo com os reservas, como Ferreti.

Durante as eliminatórias da Copa 70, eu entrava no clima de seleção e fazia minhas escalações. E, pasmem, abdicava dos três arqueiros alvinegros e escolhia o goleiro do Vasco, o argentino Andrada, aquele que faria história dentro da história do rei Pelé.

Passei a admirá-lo após o gol 1.000, que em novembro fará 50 anos de uma partida que atraiu jornalistas do mundo inteiro. Como disse um locutor, eles vieram atrás da grande notícia, o milésimo gol.

Gostava de Andrada com aquele sentimento piedoso de torcer pelos índios nos filmes de faroeste. Quando a bola entrou nas redes do Vasco, Pelé entrou na euforia de um Maracanã invadido, enquanto o goleiro, figurante, saía de cena.

Muitos anos depois, assistindo a cobrança do pênalti, renovei a admiração por Andrada ao constatar que ele foi na bola, quase a tocou. O deus do Santos, disfarçando a tensão, deu paradinha, e não bateu com a peculiar eficiência.

Andrada, chamado de El Gato, chegou no Vasco naquele final de década após dez anos de absoluta titularidade no Rosário Central, um dos "Seis Grandes" ao lado de Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo.

A melhor referência do seu talento está numa trágica atuação do Rosário nos primeiros anos da sua carreira. O time tomou de 11 x 3 do Racing e Andrada foi eleito o melhor jogador em campo. Deve ter evitado mais outros 11 gols.

Durante os dez anos no Rosário, usava uniforme todo preto inspirado no maior goleiro do planeta, o russo Yashin. Ao chegar no Vasco adotou uma camisa cinza e outra num tom azul esverdeado, a que usou no jogo contra o Santos.

Na caixinha de fósforo do Vasco a imagem que colei foi a figurinha do álbum Bola de Prata, de 1971, uma chapinha redonda e metalizada. Andrada foi uma idolatria de meninice, um ponto fora da curva do meu fanatismo botafoguense.

Ao deixar o Vasco, voltou para pendurar as luvas na Argentina e encarou uma grave denúncia de ter participado de grupos de tortura do regime do general Videla. Impuseram a ele a autoria das mortes de dois militantes comunistas.

Prefiro guardar dele, a imagem da lúdica caixinha e as imagens do dia histórico no 1.000 gol do Rei, os dois abraçados antes da cobrança, o salto na bola, os murros na grama e a foto por trás da trave, onde parece que ele parou Pelé.

Edgardo Andrada saiu da vida na quarta-feira, dia 2, um dia exatamente como aquele há 50 anos. Eu olho para trás, e lá na minha infância renovo por ele meu afeto esportivo e aguardo novembro, quando ele será lembrado de novo.