BLOG DO ALEX MEDEIROS

09/09/2019
Um marxista com ternura

Sexta-feira passada lembrei dele. Alguém na mesa do bar falou alguma coisa sobre daltonismo, o distúrbio da visão que confunde as cores, principalmente vermelho e verde. De pronto falei do único dileto amigo daltônico que eu tive, o cearense Lincoln Moraes, o grande intelectual e acadêmico que o RN teve a sorte de roubar do estado vizinho. No domingo, o sobressalto da sua morte.

Conheci Lincoln durante os anos de fundação do PT em Natal, na fronteira entre as décadas de 70 e 80. No primeiro contato, saímos de uma reunião na antiga sede do Curso Delta, na Parada Metropolitana, papeando pelas ruas do Centro até parar em Petrópolis para umas cervejas, coisa que repetiríamos durante uns dez anos. Eu tinha 22 anos, ele 33. A amizade dele foi também uma super referência, usei e abusei dos seus muitos livros e dos bons discos.

Tinha uma característica não muito fácil de encontrar num intelectual orgânico, num pensador marxista. Lincoln era um militante que bebia nas fontes culturais, uma figura festiva que badalava nas noites discutindo música, teatro e poesia.

Me aprofundou nos poemas de Maiakovski, me apresentou LPs de Pablo Milanês, Victor Jara e Paulinho Pedra Azul. E juntos baldeamos por centenas de bares e botecos, conversando e gargalhando com o melhor que a vida dá.

Buscávamos bares com sinuca, quando eu me aproveitava para ganhar cervejas apostadas nos erros dele por causa do problema na visão. Cantava a bola marrom e encaçapava a verde. Aí, ria de si mesmo e reiniciava o jogo.

Se Caetano disse que de perto ninguém é normal, quem teve o privilégio da intimidade de Lincoln logo descobria que aquele teórico da revolução socialista, o estudioso meticuloso, era uma figuraça mais do que normal, um brincalhão.

No comecinho dos anos 80, quando pouca gente em Natal falava em Canoa Quebrada, e alguns "camaradas" via na praia cearense um point de porra-loucas, eu e ele passamos uma semana por lá na companhia de duas turistas.

Maiakovski cantou que "cada um ao nascer traz sua dose de amor, mas os empregos, o dinheiro, tudo isso, nos resseca o solo do coração". Lincoln era imune a isso, sabia tocar o cotidiano mantendo acesa uma chama amorosa.

Era visível no ambiente de uma esquerda careta a inveja que ele causava no sucesso com as mulheres. O grande papo, o irrestrito respeito, o intelecto, o bom humor e um par de olhos verdes eram qualidades sem concorrência.

Na campanha eleitoral de 1982, disputei votos para vereador pedindo também para ele como deputado federal. Unidos na amizade e na política. Seu Fiat 147 azul-marinho era o nosso trio elétrico, cheio de fitas cassetes com hits da MPB.

Em 1986, ele de novo candidato a federal, acompanhei-o numa série de conversas com estudantes onde explicávamos a importância da Constituinte. Terminadas as palestras, retomávamos a eucaristia etílico-musical-literária.

Muita gente que discordou dele nos debates ideológicos jamais o viu misturar diferenças de pensamento com antagonismos pessoais, salvo raras exceções que não tiveram iniciativa nele, algumas no PT, que ele deixou há uns 20 anos.

Um verso de Maiakovski cabe na nossa amizade de juventude: "Nestes últimos anos / nada de novo há / no rugir das tempestades / não estamos alegres / mas por que razão haveríamos de ficar tristes?". Lincoln Moraes foi uma alegria.