BLOG DO ALEX MEDEIROS

24/09/2019
Futebol, arte e direitos

Nos dias de antanho, dizia-se que a seleção brasileira jogava o futebol-arte. Era comum aos locutores e comentaristas chamar um craque de artista da bola.

Quando o gol era lindo, sempre havia a complementação narrativa do repórter de campo dizendo que o goleiro nem saiu na moldura, imagem narrativa carregada nas letras - como um pintor nas tintas.

E decretava-se que aquele golaço tinha sido uma verdadeira pintura. A arte definindo padrões.

Fala-se também que um bom técnico ou um aplicado volante ou armador sabem ler o desenho do jogo.

Os maiores gênios futebol, quer seja Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Messi, Di Stefano, Maradona, Cruijff, George Best, Beckenbauer, Puskas, Eusébio, Zidane ou Riva, não são referenciados por seus currículos, mas por suas obras.

Nas centenas de grandes craques ao longo da história, todos fizeram uma jogada cotada como uma obra-prima.

Constatado esse paralelo entre futebol e arte, questiono a diferença enorme quanto ao dinheiro amealhado por jogadores e artistas plásticos durante e após a atividade. O boleiro mantém o direito de imagem, o artista quase nunca.

Uma camisa icônica, por exemplo, transfere parte do seu valor histórico para o time e para o craque que a vestiu ou seus herdeiros; isso lá na Europa, onde o negócio da bola rola com profissionalismo. O uso da imagem é outro fator.

Um jogador tem o salário, os prêmios, os contratos com patrocinadores, com fornecedores e ainda a publicidade extra. Já o pintor fatura o preço vendido ao colecionador, que depois detém o direito de imagem da obra nos leilões.

A valorização de uma tela após sair do ateliê do artista, às vezes atinge a estratosfera dos cifrões, e isto não significa qualquer repasse ao autor da obra. O pintor pode ficar com a fama, mas os dólares e os euros ficam nas galerias.

Após décadas do futebol movimentando bilhões, com retornos financeiros aos artistas da bola, não seria a hora de resgatar o espírito do pintor Robert Rauschenberg durante um famoso leilão em Nova York no ano de 1973?

O evento foi em 18 de outubro, quando a loja Sotheby Parke Bernet recebeu a nata das artes e dos negócios, expondo parte do acervo do colecionador Robert Scull, um ex taxista apaixonado por Pop Art e Expressionismo Abstrato.

Anos antes, Scull havia comprado um quadro de Rauschenberg por US$ 900 e o viu ser arrebatado naquele leilão por US$ 85 mil. Um resultado que chamamos de gol de placa do colecionador, uma enchida de bola na sua conta.

Durante o consumo de um sofisticado coquetel, o autor da tela confrontou o colecionador, dizendo que trabalhava duro para ele faturar fortunas. O que Rauschenberg questionou ali foi a ausência de royalties para os artistas.

Creio que a questão da diferença entre futebol e arte está exatamente nos direitos. Um belo gol, uma grande apresentação, dão retornos extras aos jogadores. Uma tela fantástica não rende mais ao autor depois que ele assina.