BLOG DO ALEX MEDEIROS

26/09/2019
70 anos do curador da bola

Ontem foi aniversário de um dos maiores volantes que o futebol brasileiro produziu. Clodoaldo chegou no Santos ainda moleque, oriundo de Sergipe, e antes de completar 17 anos se tornou herdeiro da gloriosa camisa de Zito, o xerife na vila famosa, nos campos da Suécia e do Chile.

Entrou no time principal em 1966 e só saiu em 1979 para pendurar as chuteiras pouco tempo depois. Nos jogos do peixe, uma metade do campo era dele, a outra era do resto.

A história do futebol tático, objetivo, refinado e discreto de Clodoaldo pode ser resumida em duas partidas da seleção tricampeã na Copa de 1970, contra o Uruguai, na semifinal, e Itália, na final.

Titular absoluto da meia cancha, ele foi essencial na glória de uma das maiores seleções de todos os tempos. Mesmo com sua peculiar discrição, não foi possível ao seu brilho ofuscar-se no meio de lendas como Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto...

Prestes a fazer 11 anos, eu já respirava futebol e também estava no clima de euforia com os resultados dos três primeiros jogos do Brasil na primeira fase.

Eu só não entendia bem os adultos da minha rua insinuando riscos no jogo contra os uruguaios; depois soube que estava fazendo vinte anos do Maracanazzo.

Anos depois li na revista Placar o craque Tostão dizendo que o embate com os uruguaios foi o mais difícil, até mais que o confronto final com os italianos.

Acordei cedo e me danei pra rua para encontrar os amigos e jogar bafo com as figurinhas do álbum da copa, que por sinal não tinha a estampa de Clodoaldo (assim como não tinha o goleiro Félix, mas seus dois reservas, Ado e Leão).

Após o almoço, já corri pra casa do vizinho garantindo meu lugar no chão e de frente para a TV, um dos três únicos aparelhos do quarteirão. As cadeiras e o sofá eram para os adultos. Quando o jogo começou, a calçada ficou lotada.

Os pais da gurizada nem bem tinham aberto as primeiras garrafas de cerveja Astra e o zagueiro Brito entrega a bola de graça para o uruguaio Morales, que enfia para Cubilla, que chuta na diagonal e abre o placar, aos 17 minutos.

Um surto de nervosismo e a canarinho começou a errar passes, no banco o técnico Zagallo fazia cara feia (anos depois soubemos que ele iria tirar Clodoaldo no intervalo). Mas aos 44 minutos, o volante brasileiro saiu do seu minifúndio.

É que o xerife Gérson, bem anulado pela marcação celeste, consultou seu capitão, Carlos Alberto, sobre uma troca de posição com Clodoaldo, o que foi feito. No avanço, Clodô lançou Tostão e partiu pra área empatando o jogo.

Nos vestiários, Zagallo esqueceu a substituição e o time voltou azeitado para o segundo tempo, virando o resultado para 3 x 1 com gols de Jairzinho, em outro passe de Tostão, e de Rivellino que foi servido numa bandeja pelo rei Pelé.

Chegamos na final apoteótica e aí baixou em Clodoaldo os espíritos Renascimento, quando ele emoldurou para sempre uma fila de cinco italianos numa pintura que culminou no quarto gol, antológico, de Carlos Alberto.

Ele tinha o apelido de Corró, que significa um tipo de cela de cadeia, apropriado para quem segurava a bola para só libertar com objetividade. Ou como um curador que tem a posse da obra para a exposição nas galerias dos gramados.

Longa vida a Clodoaldo!