BLOG DO ALEX MEDEIROS

28/09/2019
50 anos perdidos na noite

Mais uma obra marcante completou cinquenta anos do seu lançamento. Um dos filmes mais emblemáticos do cinema americano ao apagar da década de sessenta, no ano em que o homem pisou na Lua e o sonho de uma geração se encerrava - pelo menos na sentença de John Lennon - nos corpos esgotados das drogas e do amor livre em Woodstock e as almas tingidas e atingidas pelo sangue derramado da modelo Sharon Tate. Perdidos na Noite em 1969.

O título no Brasil, que as gerações posteriores à minha confundiram com o surgimento do Fausto Silva, tentava traduzir o original do romance que motivou o filme, Midnight Cowboy, uma associação proposital ao novo momento que Hollywood estava vivendo, saindo dos velhos faroestes para as coisas novas do cinema daqueles anos. Quem assistiu ao novo filme de Tarantino, é bom saber que a dupla protagonista bebe na obra do diretor John Schlesinger.

Só assisti Perdidos na Noite em meados dos anos setenta, já saindo da adolescência. Não consigo precisar se numa sessão do Cine Clube Tirol ou do DCE. Aquele John Voigt parecia de fato um John Wayne ariado na cidade.

Se gostei do filme, gostei mais ainda da bela canção Everybody's Talkin, que logo viraria um clássico. Na verdade, fiquei impactado com a música de Harry Nilsson, que passou a ser uma audição constante em disco e fitas cassete.

Na época, eu não tinha a menor noção do que a canção dizia, mas em mim transmitia uma sensação de liberdade, desenhava na mente uma autoestrada americana, daquelas highways que eu tanto via nos filmes de Hollywood.

O caipira Joe Buck (John Voigt) e o aleijado trapaceiro Rizzo (Dustin Hoffman) nos conquistaram no nosso senso de piedade; sofremos com eles naquela Nova York dominada pelas aparências de alguns e pela indiferença de muitos.

O filme garantiu lugar para Voigt no disputado mercado cinematográfico e estabeleceu Hoffman no seleto clube dos grandes astros. Aquela atuação é a melhor dele, a sétima performance na lista das 100 mais da revista Premiere.

Perdidos na Noite se consagrou com todos os prêmios de 1969 e 1970, papando o Oscar, Globo de Ouro, Bafta, Grammy e Berlinale como melhor filme. O maestro inglês John Barry deu um show na composição da trilha.

Um filme digno de rever às vezes tantas possíveis. Foi essencial na afirmação da nova fase da indústria hollywoodiana pós faroeste. Aliás, em maio de 1969 quando o filme foi lançado, milhares de espectadores foram ver bang bang.

Mas o diretor tinha logo no começo o ponto de ruptura, usando a técnica de um filme dentro do outro. Tiros e cascos de cavalos eram somente o passado daqueles cowboys que iriam se perder no submundo da grande cidade.

Vivi muitos anos desejando voar numa rodovia ouvindo Everebody's Talkin. E se não tem Nova York, tem Paris. Então um dia dirigi por horas na rodovia de acesso à capital francesa, com um CD repleto da canção. Por trás dos óculos escuros, lágrimas de ontem, um choro feliz.