BLOG DO ALEX MEDEIROS

02/10/2019
A vampira de todos

Na lista dos melhores 50 filmes nacionais, A Mulher de Todos, dirigido, produzido e escrito por Rogério Sganzerla em 1969 está completando meio século.

O cineasta havia estreado no ano anterior com O Bandido da Luz Vermelha e arrancado elogios da crítica. Neste segundo trabalho, uma narrativa panfletária e toda recortada nas imagens da atriz e sua mulher, Helena Ignez, numa comédia erótica no alvorecer das pornochanchadas.

Longe de ser um clássico da nossa magra cinematografia, o filme pode ser visto como um divisor de impacto sexual com a atuação depravada de Helena, a baiana descoberta por Glauber Rocha na cena universitária e que a exemplo de ter se tornado sua atriz e esposa, repetiu a dose com Sganzerla.

O papel de Ângela Carne e Osso, a ninfomaníaca vampiresca, foi um ataque frontal aos bons costumes de uma época de censura no auge do Ato Institucional nº 5.

A nudez e devassidão constantes da personagem dominam os quase 90 minutos de filme, onde a anatomia de Helena é uma visão sensual equivalente a três louras internacionais, Marianne Faithfull, Ann Margret e Sharon Tate.

Na narrativa do jovem jornalista Renato Machado, a insaciável Ângela é a rainha dos tarados, telegrafistas, suicidas pernambucanos, colonizados, tucanos, apopléticos, choferes de táxi, foliões, turistas e amazônicos em geral.

Ela é casada com um milionário excêntrico, Doktor Plirtz, interpretado por Jô Soares. Dono de uma editora de quadrinhos, fã do Cavaleiro Negro e do Batman, ele convive com a mulher infiel e com um filho de dez anos, fumante.

A voz de Renato identifica as taras do corno, um colecionador de pessoas com preferências por adolescentes, semi virgens. Suspeito que o filme poderia atualmente ser denunciado em listas de protestos de combativos jornalistas.

Falando nisso, numa fala da vampira, o velho chavão sociológico de Rousseau, não existe liberdade individual sem liberdade coletiva. Mas a liberdade é só de Ângela, para comer homens e vinil, para beijar outra mulher e transar na rua.

O filme inicia com ela e um amante se agredindo numa escada rolante e depois fazendo sexo num banheiro feminino, nos poucos minutos de Stenio Garcia na fita. Depois trepa com Antônio Pitanga, Paulo Villaça e Antônio Moreira.

Mulher de classe, bom apetite, o lance é esse, repete a devassa oferecida a todos. Ao som de Elvis Presley, uma frase-panfleto, "um macaco, uma pantera ou um sutiã são tão interessantes quanto um deputado e uma vigarista".

No adúltero passeio na Ilha dos Prazeres, do Arquipélago da Saudade, onde um casal paulistano faz um piquenique no clássico estilo farofeiros nordestinos, Ângela toma picos e se desnuda trocentas vezes para vis e variados amantes.

Contrastando com a cena do marido agredindo a mulher na praia, nada mais belo que Helena de calcinha e camiseta brancas saindo do mar; uma imagem mais sensual do que a de Úrsula Andress sete anos antes como Bond Girl.

A Mulher de Todos é mais uma obra que completa 50 anos do lançamento, um marco na carreira de uma atriz e diretora que fez 80 anos. Aliás, uma edição da Folha toma a tela com a manchete: "Delfim Neto: 1969 será o ano de ouro".