BLOG DO ALEX MEDEIROS

03/10/2019
A resiliência da carne

Prestes a completar sessenta anos, finalmente aprendi prendas domésticas e agora já tenho uma modesta autonomia de voo no espaço da cozinha.

O recente dote culinário adquirido não é, obviamente, suficiente para encarar um concurso gastronômico ou participar daqueles programas de TV em que o convidado cumpre a perigosa missão de cozinhar diante do apresentador - que geralmente é um chef - e da multidão invisível dos telespectadores.

Há, no entanto, um probleminha que entendo complicado para exibições caseiras em recepções fortuitas. Além dos triviais pratos de massa e panelas de feijão, peguei um certo jeito para assar e cozinhar carnes, vermelhas e brancas, e ainda não arrisquei mexer com os legumes e as verduras, uma desvantagem para quem acumulou nos últimos anos alguns colegas que enveredaram pela alimentação dita saudável e aboliram as carnes.

Afeito a uma militância boêmia que já soma umas duas dúzias de confrarias desde o colegial, jamais me vi numa situação em que as carnes não estivessem no centro do lazer em comunhão com molhos e cervejas.

Aliás, meu sangue seridoense moldou os costumes da região de pouca intimidade com verduras e legumes, a não ser mergulhados no feijão ou fazendo as vezes de jogo americano debaixo de umas postas de peixes.

Na infância, nalgumas vezes que minha mãe permitia minhas idas à cozinha, lugar que ela considerava proibido para homens, houve um período que eu queria saber como preparar os filés que meu pai trazia do mercado central.

Acho que eu tinha pouco mais de cinco anos quando achei que sabia preparar carnes, exibindo para terceiros ao pedido materno o entendimento de que bater a faca na carne com a lâmina era fazer bife, e bater com a ponta era lombo.

No início da puberdade, quando ouvia os adultos comentarem que o gosto pelas verduras não era coisa original nos seridoenses, lancei suspeitas de que todas as crianças do planeta nasciam impreterivelmente na terra de Santana.

Quando a onda da tal vida saudável ganhou corpo e os vegetais começaram a substituir os animais na dieta de muitos, passei a contar o tempo de extinção das confrarias. Não imaginava um chamamento para tomar uma com alface.

As carnes, elas sim, eram o elo de ligação entre os confrades e o álcool. Poderiam até ser substituídas, provisoriamente, por umas massas, mas jamais por churrasquinho de pepino, um pezinho de couve ou tomates verdes fritos.

Alguns amigos, eu sei, foram vencidos pela propaganda alarmante acusando as carnes de provocarem câncer e tantas outras milacrias que atacam e matam a saúde humana. Vitória dos vegetarianos, dos macrobióticos e dos veganos.

E se alguns teimosos como eu, na firme herança genética e filosófica do meu pai carnívoro, tentasse contrapor, logo surgia o decreto de que o malefício das carnes tinha a confirmação das autoridades de saúde pública dos EUA.

Mas agora, vem a reviravolta e os mesmos doutores americanos dizem que tudo era mentira. A proteína animal é boa pra saúde, além de se manter ótima para o paladar. Ah, e para o coração, garante a boa nova da Medicina.

Também resgata o gênio Millôr, que dizia "um homem que come carne por instinto é tão vegetariano quanto um homem que come vegetais por princípio. Afinal de contas a carne é a transubstanciação do capim que o animal comeu".

Minha Confraria do Porquinho está salva, jamais será Confraria do Brócolis.