BLOG DO ALEX MEDEIROS

04/10/2019
Murilo Lemos, presente!

As lembranças de velhos dias felizes são sempre minhas melhores viagens. E quando a dureza da vida adulta se impõe, eu escapulo pelos atalhos da memória e mergulho numa fresta do tempo e logo estou revivendo os momentos que a passagem dos anos não conseguiu apagar.

Ontem foi um feriado de distância dorida, de mais uma perda afetiva, e que me forçou a viajar de novo para o passado sem dor. Fui brincar nas ruas das Quintas.

Nos telefonemas do amigo Walter Fonseca e da minha filha Marana, o aviso terrível da morte do meu velho amigo Murilo Lemos, o idealizador e capitão do inesquecível Mário Lira FC, o time da rua homônima, onde vivíamos as reprises lúdicas das jogadas de Leivinha, minhas, e de Luís Pereira, dele.

Murilo foi há 50 anos das primeiras amizades construídas quando cheguei em 1969, um dos guias no reconhecimento do novo terreno que se tornaria minha Neverland.

A exemplo da reação que eu tive há alguns anos quando partiu outro grande amigo daqueles anos, Junior Vovô, não fui ver seu corpo inerte num caixão. Preferi rememorar nossas correrias com a bola, os tantos saltos nas calçadas.

Certeza que meu sentimento agora é também dos demais colegas daquele nosso microuniverso, imenso espaço das alegrias compartilhadas no barro e no calçamento que formaram o amálgama de uma amizade que venceu o tempo.

Estou de novo em nosso primeiro solo esportivo, a rua areada cortada pelos paralelepípedos da travessa de mesmo nome. Entre a esquina da bodega de Valdomiro e a curva pra casa do ferreiro, o campo e as traves com chinelos.

Na outra parte, da esquina do boinho de Dona Maria até as casas dos primos Soares, nosso segundo estádio no céu aberto de sonhos. Lá vai Murilo, espírito de liderança, medindo os passos e colocando chinelos e tijolos em cima.

No par ou ímpar, começa a convocação dos craques, sequência de um pra cada lado. Formam-se as equipes, cinco contra cinco, seis contra seis, ou mesmo seis contra sete, provisoriamente, até mais alguém surgir na rua.

Depois água gelada, dindin de manga e coco queimado, resenha sobre mais um grande jogo, reclames de faltas inexistentes pra uns existentes pra outros. E nos esparramos na esquina ao som das canções do moto-rádio da bodega.

Murilo compartilhava comigo o gosto por cinema e quadrinhos, nos inseríamos nas aventuras de Flash Gordon e Tarzan nas vesperais de sábado e domingo do Cine São José. E havia também os filmes no São Sebastião e no São Luiz.

Ele era único entre nós numa outra arte, a fotografia; e vivia a registrar nossas andanças pelos caminhos do bairro que para nós eram vastos. É de Murilo a foto que ilustra esse texto carregado de saudade e cheio da ausência dele.

Dividindo a bola dente-de-leite, eu e Geninho, com Zé Paulo e Naelson acocorados para sair no registro. Na calçada (da casa de Murilo), outro ausente, Lupercinho, um dos caçulas da turma e uma vítima dos meus trotes.

Outra foto do nosso zagueiro-repórter e que eu guardo como um tesouro, devidamente plastificada, é da minha primeira paixão de puberdade. A beleza eternizada num clic, um sorriso que me acompanhou pela minha vida afora.

Há alguns anos, nos encontramos para umas cervejas, dois cinquentões celebrando os dias felizes que forjaram nossas personalidades. Bebemos aquele passado e compramos juntos os velhos filmes da nossa irmandade.

Peço à Verônica - seu eterno amor - aos filhos, aos parentes e amigos de Murilo Lemos, que recebam este registro como um beijo de pesar.