BLOG DO ALEX MEDEIROS

06/10/2019
Música que ainda nos toca

Gosto de me preencher de vazios. Não o vazio da ausência, mas o da saudade, do desejo de retorno, da vontade de voltar ao começo.

Sou um privilegiado, entre os privilegiados da minha geração, por viver tomado pelas lembranças do que foi bom, do que não morrerá em mim, em nós, no tempo sem fim.

Comecei no ano passado a registrar as boas coisas feitas há meio século, numa explosão de força e beleza artísticas que não será fácil se repetir.

Escrevi e venho escrevendo sobre filmes, músicas, discos, atores, cantores, eventos e imagens icônicas que surgiram nos emblemáticos anos de 1968 e 1969.

Cada um desses registros representa não apenas o retrato glamoroso de uma época fértil, mas também são elementos indissociáveis da conjuntura de então, posto que a História é feita pela composição de tudo aquilo composto no arrastar das correntes do tempo. Nós somos parte de tudo que nos influencia.

Das tantas canções fundamentais na composição do tecido cultural de cinquenta anos atrás, uma sem dúvida é "Good Morning Starshine", um dos hinos da geração hippie, de autoria do cantor norte-americano William Oliver.

Ele compôs a música em 1967 para o musical Hair, na Broadway, mas que só estourou nas paradas dos EUA e da Inglaterra em 1969, respectivamente nos meses de julho e outubro, quando a gravou como single e em seu álbum.

Na peça teatral, nas montagens de 1967 e 1968, foi cantada no segundo ato pela personagem Sheila interpretada pelas atrizes Jill O'Hara e Lynn Kellogg. Quando a Apollo 11 pisou a Lua e ocorreu o Woodstock, já era o terceiro hit.

Dez anos depois, em 1979, Hair atraiu hordas de jovens para os cinemas, na adaptação do grande diretor Millos Forman. Minha geração estava fazendo vinte anos, com uns no serviço militar, alguns na faculdade, outros ao léu.

Sessão no Cine Nordeste ao meio da tarde, fiz uma hora na loja Discol e encarei uma pequena fila. No fim da sessão, eu e uma paquera nos escondemos para permanecer na segunda exibição que logo começou.

Cabelos nos ombros, calça do Exército (uma onda na época), tamanco de madeira e couro, uns trocados para a Coca-Cola e um maço de cigarros ingleses Peter Stuyvesant, contrabando comprado a dois fuzileiros navais.

Perfil fácil de se identificar com o personagem Berger, interpretado por Treat Williams e líder da turma. Mas, em verdade, eu estava ali me espelhando no personagem Claude, de John Savage, louco por Sheila (Beverly D'Angelo).

Good Morning Starshine é cantada em grupo, dentro de um carro conversível a toda por uma estrada de barro. Desde então mantenho o LP de quarenta anos entre os primeiros da pilha, repetindo o bom dia para o brilho da estrela.

A música tem letra curta e um refrão bem maior, mas que faz uso de palavras aparentemente sem sentido, como um conjunto de onomatopeias irreconhecíveis: glibby, gloop, nibby, nabby, noopy, la, lo, sabba, sibby, nabba.

"Brilho da estrela, bom dia / a terra diz olá / você acima de nós / brilho nós abaixo / você a nos guiar / meu amor e eu como cantamos / nossa música de manhã cedo / uma canção de amor / sing, sing, song, song". Eu sigo ouvindo.