BLOG DO ALEX MEDEIROS

22/10/2019
Secos & Molhados na TV

Numa tarde de julho de 2016, no Rio, eu bebericava uns chopes com amigos no badalado bar Jobi, no Leblon, quando vi passar a figura delgada do cantor Ney Matogrosso.

Deslizava entre as pessoas que tomavam a calçada, olhar fixo no rumo da venta, carregando uma pequena sacola de supermercado, onde decerto estavam alguns víveres recém-comprados. Impossível não me remeter ao passado, ao surgimento do fenômeno do Secos & Molhados.

Em 1973 fazia apenas um ano da primeira transmissão em cores na televisão brasileira; mas aquele colorido hippie da maquiagem de Ney e seus dois parceiros de banda explodiu nos aparelhos em preto e branco do País, retratando para todos a transgressão visual, gestual e musical que em tempo recorde penetrou nos lares e na alma da nação, conquistando fãs de Norte a Sul.

E quando o primeiro LP saiu em agosto, as quatro cabeças numa baixela de prata, o estouro de vendas foi um aviso de que aquilo não era brincadeira.

As cabeças de Ney, Gerson, João Ricardo e Marcelo Frias (o batera que não seguiu na banda) rodeadas de comidas eram uma representação surreal e/ou psicodélica do próprio nome, inspirado nos velhos armazéns do passado.

Foi João Ricardo, durante umas férias em Ubatuba, que viu uma velha placa com o termo "secos e molhados" e ligou para o amigo Gerson Conrad, com quem desde o fim dos anos 1960 tinha sonhado cantar e compor canções.

Nesse meio tempo, Ney Matogrosso tentava ganhar trocados vendendo bugigangas de artesanato hippie nas praias cariocas. Já tinha mais de 30 anos e nenhuma perspectiva profissional, abortada fazendo teatro no ano de 1964.

Os dois jovens amigos tocavam em São Paulo, o português João com 24 e o paulistano Gerson com 21. O segundo detestou o nome, mas encarou a sugestão do parceiro de adolescência. Ficava faltando alguém para cantar.

Ney foi exportado do Rio por sugestão da amiga e cantora Luhli, que acabou sendo coautora do estrondoso sucesso "O Vira", já no icônico primeiro LP que saiu pela gravadora Continental com o empurrão do jornalista Moracy do Val.

Secos & Molhados balançou o coreto da conjuntura de censura e deu uma sacudida na MPB como se fosse a sobrevida da Tropicália se levantando mais transgressora e mais desbundada, unindo poesia, glam rock e teatro kabuki.

Semana passada mergulhei mais nas lembranças do fenômeno musical que ameaçou a hegemonia do rei Roberto Carlos, vendendo seis vezes mais discos nos primeiros meses de lançamento do LP que ainda toca na minha vitrola.

O mergulho foi possível com a chegada do livro "Primavera nos Dentes - A História do Secos & Molhados", um belo e profundo trabalho do escritor e cineasta Miguel de Almeida e que vai virar uma série de TV no Canal Brasil.

Agora é aguardar a produção e conhecer os atores que irão interpretar o trio. Ney Matogrosso completou em agosto 78 anos; João Ricardo vai fazer 70 em novembro; e Gerson Conrad fará 68 anos no próximo abril.