BLOG DO ALEX MEDEIROS

28/10/2019
O papel político do cinema

Em 1962, o escritor Philip K. Dick se consolidou como um mestre no gênero ficção científica, ganhando o prestigiado Prêmio Hugo de Literatura pelo romance O Homem do Castelo Alto, um roteiro baseado em distopia e mundo paralelo, temas que ele já abordara antes, mas que ainda não havia chamado a atenção dos críticos e da mídia de antanho. O livro fala de um universo onde o resultado da Segunda Guerra Mundial foi o oposto, com a vitória do Eixo.

O Homem do Castelo Alto virou série no serviço de streaming Amazon Prime em 2015, que recentemente entrou no circuito brasileiro e vem repetindo aqui o sucesso em outros países. O centro da trama é nos Estados Unidos divididos ao meio após a vitória nazifascista em 1945, com uma banda dominada pelos alemães e outra pelos japoneses, que tentam impedir a divulgação de fitas de cinemas mostrando a vitória dos aliados neste universo em que estamos todos.

O livro e o seriado servem para levantar um tema de reflexão. O que deve acontecer com as obras de arte, principalmente os filmes, produzidos durante uma ditadura - de esquerda ou direita - e sob o controle político e social?

Tais filmes deveriam ser queimados, atirados ao mar ou exibidos e estudados? Nestes últimos exemplos, que temor pode haver se forem parar em governos e mentes de quem esteja disposto a prosseguir com seus recados ideológicos?

Dá para ignorar o cinema russo pós revolução comunista ou o cinema alemão no auge do domínio nazista? Censurá-los ou destruí-los é praticar o ponto central da obra de Philip K. Dick reproduzida na empolgante série da Amazon.

Deixando de lado a caça às bruxas dos mundos paralelos, é inegável o valor artístico dos filmes realizados durante as ditaduras comunista e nazista, entre 1917 e 1945, com a devida vênia de quem vê perigo na sua força de influência.

Há um documentário alemão chamado "Hitler's Hollywood" (A Hollywood de Hitler), de 2017, que aborda a estética, o discurso e a mensagem subliminar inseridos no cinema da República de Weimar no período de 1933 a 1945.

Começa com o narrador reconhecendo a periculosidade do terreno e pede que o espectador se concentre nos detalhes desconsiderando a mensagem de superfície sem a perder de vista. "Não há razão para desviar o olhar", diz.

Assim como antes o cinema russo prescindiu de qualquer apelo liberal, se engajando radicalmente nos princípios de uma visão operária, a indústria nazista expurgou dos sets comunistas, democratas, homossexuais e judeus.

A respeito do documentário, o The New York Times disse em abril do ano passado que ver hoje aqueles filmes "é encontrar um universo alternativo, no qual toda morte era feliz e até musicais escapistas enfatizavam um ideal".

Tudo sugere que a arte engajada se equivoca, mas acaba cumprindo o adágio de que todo mal traz um bem. O cinema comunista nos deu o diretor Serguei Eisenstein e a atriz Lyubov Orlova, o cinema nazista lançou Leni Riefenstahl e Marlene Dietrich, e ainda abriu uma janela pra Ingrid Bergman.