BLOG DO ALEX MEDEIROS

31/10/2019
Os prazeres do vício

O álcool, em suas variadas fermentações, que nos dão o uísque, a cachaça, o vinho e a cerveja, entre outras bebidas, é a melhor das drogas. A afirmação é minha, obviamente em referência ao consumo racional que limita o efeito ao velho barato.

Bebemos por qualquer motivo, bons ou ruins, ou até mesmo como dizia Mário Quintana, que chamava de cretinice o hábito de muitos em beber apenas por puro desgosto.

O álcool, eu sei, mata. É verdade. Por dentro, na cirrose, e por fora, no trânsito. Mas, também salva, no sentido estrito do estímulo às atividades, e no sentido lato da própria medicina. A bebida é amiga das almas.

Alguém disse, num porre poético, que uísque é o cachorro engarrafado. O drink sagrado de cada dia é também o maior aliado dos apaixonados, um estímulo para inspirar poesias e cartas de amor.

Sou cervejeiro com quarenta e cinco anos de sonho, sangue e de América do Sul, apesar da primeira bicada ter sido com aguardente Caranguejo, aos 13 anos, no balcão de uma mercearia nas Quintas; a segunda foi num boteco em frente à Escola Estadual Winston Churchill, na avenida Rio Branco.

Creio que os dois atos como ritos de passagem acabaram salvando minha puberdade e garantindo uma entrada saudável na adolescência. Os pileques de moleque amostrado foram providenciais para combater as tantas áscaris lumbricoides da vida insalubre.

Foi mais ou menos naquele tempo que aprendi a contar uma das tiradas criativas (ou seria apenas lenda urbana) do personagem Zé Areia (me acuda mestre Woden Madruga). Criticado por beber muito, apontou um caixãozinho azul de um bebê defunto e disparou: "só bebia leite, mas morreu".

Respeito mais quem assume os gostos e vícios do que quem esconde ou faz charminho de etiqueta careta. O escritor inglês Thomas Quincey, opiômano assumido, ilustrou bem a situação ao dizer que a maioria da humanidade adora se esconder na sobriedade.

A maior personalidade do século XX, Winston Churchill, botou a cara na guerra expondo o vício do charuto e do uísque, e resolvendo a parada contra o ditador Adolf Hitler, um quase abstêmio. "Já tirei mais do álcool do que o álcool tirou de mim", disse ele.

Contam que quando o cineasta John Huston convidou o ator Humphrey Bogart e a atriz Katharine Hepburn para protagonizarem "Uma Aventura na África", em 1951, o astro do clássico "Casablanca" ligou para a sua esposa, a grande atriz Lauren Bacall:

"O monstro quer que eu vá filmar em plena selva africana, com 40 graus, numa aldeia cheia de mosquitos e rodeada de animais selvagens. E eu, naturalmente, aceitei". Bogart dizia que o velho amigo Huston era o único cara que bebia uísque mais que ele.

Na biografia de Katharine Hepburn, do escritor A. Scott Berg (disponível em espanhol no formato PDF na Web), diz que as bebedeiras de Huston e Bogart acabaram vacinando seus organismos contra as doenças tropicais da África.

Durante as filmagens, contou Miss Kate, a grande maioria dos membros da equipe pegou malária, exceto a dupla de amigos, que no set-acampamento só escovavam os dentes pela manhã. À noite, enxaguavam a boca com goles e gargarejos do puro malte.

O vício é coisa terrível, quer seja de droga, de álcool ou de ideologia, como dizia Carl Jung, o pai da psicologia analítica. A embriaguez política é o pior de todos.