BLOG DO ALEX MEDEIROS

04/11/2019
Um país tropical há 50 anos

Rio de Janeiro, meados de 1969, o Maracanã lotado com as torcidas do Botafogo e do Flamengo, o clássico que por quatro anos seguidos vinha impondo humilhação ao time da Gávea.

Um jogo abrindo o segundo turno, cujo primeiro havia sido conquistado pelo alvinegro de General Severiano, e que ficaria marcado para sempre como a quebra do tabu e a ascendência da ave urubu como símbolo dos rubro-negros e não mais como imagem pejorativa.

A vitória do Flamengo promoveria também o surgimento de uma das mais belas canções da MPB, País Tropical, que Jorge Ben (ainda sem Jor) compôs inspirado no jogo e embevecido pela paixão clubista.

Muitos anos depois ele disse ter composto após telefonar para uma paquera chamada Tereza logo após os 2 x 1 no Botafogo. A moça foi homenageada na canção e também em "Cadê Tereza", no mesmo LP que ele lançaria em novembro daquele 1969.

Se existiu ou não a "nega chamada Tereza", a verdade histórica é que o rei do samba-rock namorava na época com a baiana Gal Costa e foi a ela que ele entregou a música para ser cantada no show da casa noturna carioca Sucata.

Com acesso às turmas da Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália, Jorge não tinha pinimba com ninguém, talvez o único artista a se apresentar nos programas de Elis e Jair Rodrigues, de Caetano e Gil e no de Roberto Carlos.

Aliás, a popularidade musical do Brasil em 1969 era dividida entre o Rei e Wilson Simonal. E foi com o cantor de Sá Marina, sucesso absurdo de 1968, que Jorge foi assistir a um ensaio do show da namorada Maria da Graça.

Um mês depois, Simonal telefonou e convidou o amigo a dar uma passadinha na gravadora. Estava gravada País Tropical, que sairia em julho e ganharia as rádios e as bocas de Norte a Sul. Quando Gal gravou, já era um hino nacional.

Coincidência ou não, a gravação de Simonal começa com uma gargalhada e um discursinho: "em homenagem à graça, à beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira". Nem ele nem Gal jamais insinuaram aquela graça no início.

Neste novembro faz exatos 50 anos da versão do dono, já que Jorge Ben foi o último a lançar País Tropical, numa pegada toda peculiar. As três gravações tocaram pelo Brasil, sendo a de Simonal um vetor de arrebatamento musical.

Quando ouço o hit, em qualquer versão, as imagens de 1969 saltam na memória afetiva, me vejo colando figurinhas, lendo gibis, vendo seriados na TV, atravessando a cidade nos ônibus, as peladas no barro da rua Mário Lira.

O médico e poeta Napoleão Paiva relembra bem: "De todas as emoções, nada igual a Wilson Simonal no palco do elegante América, com suingue que só a ele Deus deu, cantando Moro num país tropical, mó num pá tropi... Genial".

A tentativa de dar a Jorge e Simonal as suspeitas dadas aos Incríveis e a Dom e Ravel sumiu com o sucesso e com Aquele Abraço, de Gil. Meu mano Graco Medeiros diz que quase se deixou levar pelo patrulhamento ideológico.

"Aquela música me torrava o saco com os versos do Flamengo, mas no íntimo eu gostava, não estava nem aí para as patrulhas que pegavam no pé até de Roberto Carlos e dos Incríveis. Ainda moro num país tropical, patrulheiros".

A canção é a síntese do suingue e da batida de Jorge, bem representados por Simonal e Gal há 50 anos. Bem disse Caetano: "Jorge é um homem que habita um país utópico trans-histórico, aceito por diferentes tendências musicais".