BLOG DO ALEX MEDEIROS

10/11/2019
Mário Lira Futebol Clube

Meados de 1972, a cidade no clima da Minicopa da Independência, iniciativa da antiga CBD (que daria lugar à CBF) para os festejos do sesquicentenário do grito de Dom Pedro I. Em Natal jogariam as seleções de Portugal, Equador, Chile e Irlanda, tendo o Equador atuado no Castelão em três das suas quatro partidas. Numa delas eu estava lá, menino de 13 anos, torcendo por Eusébio num frasqueirão ainda descoberto. Pelé o havia chamado de "meu irmão".

Junte duas festas esportivas de ufanismo grandioso, como foram a Copa de 1970 e aquela Minicopa, e temos uma geração de moleques multiplicando em larga escala o prazer diário pelo futebol. Foi assim que aconteceu com a minha turma das Quintas, garotos apaixonados pela bola e invariavelmente tocando nela todos os dias, com sol ou chuva, no barro da rua Mário Lira e nos descampados do bairro, nos tarugos do Potengi e no gramado do quartel CIAT.

Na foto, de pé: Del, Nilson, Augusto, Bosco, Gero e Doca; agachados: Geninho, Edvanilson, Neto Barata, Toinho e Alex. Duas saudades maiores na foto: o único sorridente, Augusto, e o fotógrafo, Murilo, já não estão em campo.

Murilo, um dos mais próximos a mim, se foi há um mês, dediquei-lhe uma crônica aqui na coluna e falei dos seus dotes fotográficos desde guri. Augusto, que introduziu o skate nas calçadas do bairro, se foi jovem, violentamente.

Éramos mais de vinte meninos, unidos num grude de lealdade familiar, fruto dos ensinamentos dos nossos pais, todos pobres e com espíritos civilizatórios de fazer inveja às elites que sempre dominaram Natal e todo o nosso RN.

Na foto, uma das tantas formações do Mário Lira FC, o time de camisas brancas com golas azuis e as mangas margeadas em amarelo. Se não surgia adversários, nos dividíamos em peladas diárias que duravam toda uma tarde.

Havia ainda Júnior Vovô, Zé Paulo, Cacau, Bezo, Mauri, Heriberto, Naelson, Beaugeste, Juarez, Zé Filho, Joatan, Jorge Cantor, Jorge Pescador, Darinho, Eliezer, Sergio, Eliomar, Mineirinho, Edilson, Percinho, os filhos do ferreiro...

Todos conectados numa afinação lúdica que tinha no futebol o centro de tudo, e em todas as suas variações. Jogávamos bola na rua, futebol de caixa de fósforos nas calçadas, botão nas mesas dos primos Soares (cinco deles estão na foto) e disputávamos no jogo de bafo as figurinhas dos craques de então.

Garotos sem frescura, amadurecíamos na psicologia da picardia, quando as provocações não eram tratadas como bullying e sim como ritos de passagem. Todos tinham algum apelido irritadiço que poderia ser sanado com gargalhadas em grupo ou troca de sopapos com luvas de camaradagem.

Conflitos eram solucionados em horas, se um tanto graves, em dias, durante as brincadeiras.
O time reforçava a amizade com jogos de biloca, triângulo, xadrez, aliado, Banco Imobiliário, bandeirinha, garrafão, preguinho, totó. E com as demoradas horas de filmes e seriados na televisão em preto e branco ou telas colorizadas.

Naquela irmandade, quase todos saíram da puberdade numa mesma época, e juntos experimentaram os primeiros goles de cerveja, cachaça e vinho barato. Lembro do primeiro réveillon alcoolizado e da sensação da primeira ressaca.

Os primeiros flertes com as meninas têm o cheiro do cigarro e a lembrança da adesão às calças boca-sino, aos cintos de grandes fivelas e aos sapatos cavalo de aço. Alguns aderiram à moda hippie deixando crescer os cabelos.

Minha primeira dança foi o hit Happy Man, da banda Chicago, dois anos depois da foto. O disco rodando na vitrola portátil e o mundo rodando na disritmia do meu coração. Uma emoção que sempre volta quando lembro daqueles dias.