BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/11/2019
A cabeça de Virgínia

Só agora os jornais americanos e europeus divulgam a morte da atriz Virginia Leith, a norte-americana que estrelou o primeiro longa-metragem do diretor Stanley Kubrick, no filme Medo e Desejo de 1953, uma obra do gênero dramalhão de guerra onde alguns soldados caem num avião atrás das linhas inimigas e ao serem vistos por uma camponesa passam a estudar uma forma de sair dali, enquanto um deles, enlouquecido, tortura a mulher, que é Virgínia.

A atriz morreu no último dia 4 aos 94 anos, uma idade inimaginável aos desejos pedófilos de Arthur Clarke, autor do livro 2001 - Odisseia no Espaço, que Kubrick filmou, e que diante do desvio sexual viveu seus últimos anos numa casa do Sri Lanka, o único país cujas leis não seriam obstáculos aos seus interesses sexuais.

Virginia Leith conheceu Kubrick nos anos 1950, quando serviu de modelo fotográfico para um material que ele realizou para uma revista chamada Look. Jovens, ela tinha 25 anos e ele 22.

Uma década depois do filme, Virginia seria a estrela de um filme de ficção científica que se não foi um sucesso de bilheteria, se tornou um ícone do gênero pela abordagem inusitada sobre os transplantes no âmbito médico.

Produzido em 1962, o filme O Cérebro Que Não Queria Morrer só passou no Cine São José, nas Quintas, em 1970, causando um impacto na cabeça de um garoto de onze ou doze anos acostumado com as aventuras do Flash Gordon.

Gravado em 1959, a obra estreou nos EUA em 1962 e já era antiga quando chegou na pequena sala do "purguinha" - como chamávamos o cineminha do bairro - chocando todos os garotos presentes na sessão vesperal do sábado.

Baseado no velho romance do monstro de Frankenstein, o roteiro trata de um cara que tentava manter viva a cabeça da sua amada, toda ligada por fios e eletrodos e alimentada por um soro especial. Era a cabeça de Virgínia Leith.

Após aquela sessão, enquanto o grupo de meninos voltava para casa na escuridão da rua Pedro Novôa, entre corredores de barracas da feira, a discussão era sobre onde estaria a alma humana; na cabeça ou no coração?

A personagem de Virgínia morreu num acidente automobilístico e seu noivo carrega sua cabeça decepada para tentar juntar a um novo corpo, que ele vai procurar entre garotas que frequentam strip-tease e concursos de beleza.

Aquela imagem da cabeça se manifestando sozinha, sem um corpo, ficou por quase uma década na minha mente, até que reencontrei a atriz nos seriados Baretta e Barnaby Jones, sucessos policiais da televisão nos anos 1970.

E só então percebi a beleza morena de Virgínia Leith em sua maturidade, principalmente no uso dos cabelos curtos, um estilo que sempre gostei.

Naqueles anos de meninice, outros filmes mais antigos com ela passaram na TV Tupi, TV Record e TV Globo, tempos das novelas Beto Rockfeller, A Menina do Veleiro Azul e Rosa Rebelde, que dominavam as atenções.

A partir de 1972, quando a TV Universitária foi fundada, velhos filmes entravam na sua grade, e numa noite vi Virgínia na companhia de Ginger Rogers em A Viúva Negra, de 1954, logo após o costumeiro musical de Herb Alpert.