BLOG DO ALEX MEDEIROS

15/11/2019
Ford V Ferrari

No começo dos anos 1960, a indústria Ford atingiu um nível de engenharia automotiva que botava no mercado um carro com quase todas as qualidades para satisfazer os desejos e fantasias dos seus consumidores. E se dizemos quase tudo é porque em que pesem a tecnologia e o design, faltava nos carros Ford aquela emoção que brotava nos motoristas com a velocidade que eles assistiam na televisão durante as corridas de Fórmula Um e outros motores.

Segundo o entendimento dos próprios engenheiros e executivos da marca, faltava um toque sexy para atrair a clientela mais jovem, exatamente aquela que estava mudando o mundo em todos os sentidos. Os anos 1960 tinham nas ruas do mundo uma revolução de juventude, e então a Ford decidiu comprar uma empresa que não se comparava em nada com ela, mas tinha exatamente o que faltava para seu intento de renovação. A Ford queria a sexy Ferrari.

Em 1963, o agradável se uniu ao útil quando a empresa italiana começou a fabricar carros extremamente rápidos e visualmente mais bonitos do que todos. Foi o sinal para a Ford oferecer a quantia que a Ferrari exigisse para a venda.

Quando a imprensa procurou o comendador Enzo Ferrari e indagou sobre o negócio, ele discorreu sobre o assunto e gastou longos minutos que poderiam ser resumidos em um não. Nos EUA, Henry Ford II sentiu-se humilhado.

E se a humilhação provoca às vezes silêncio ou às vezes acorda instintos primitivos, a segunda situação ocupou a mente de Ford e ele partiu para dar o troco nas pistas. Mandou fazer um carro para vencer a Ferrari numa corrida.

Não houve qualquer prurido financeiro, a ordem foi não economizar na construção de um supercarro, um bólido que superasse a marca italiana na disputa da tradicionalíssima prova das 24 Horas de Le Mans, na França.

Foram milhões de dólares investidos na empreitada, que não foram suficientes para encarar a então imbatível Ferrari nas corridas de 1964 e 1965. A última chance foi em 1966, era tudo ou nada, a Ford precisava da sua autoestima.

Grife da modalidade, a corrida no circuito francês é a mais importante do mundo automobilístico, em atividade desde 1923. Na prova de 1966, a Ford também tentava inserir a presença norte-americana, ainda sem uma vitória.

Disputada nos dias 18 e 19 de junho, a corrida apresentou ao mundo dois nomes que ficariam conhecidos também na F1, o francês Henri Pescarolo e o belga Jacky Ickx, que venceria Le Mans seis vezes, três delas consecutivas.

Foi naqueles dois dias que uma escuderia americana venceria pela primeira vez em Le Mans, com o piloto Carroll Shelby pilotando o Ford GT40 em duelo com a Ferrari do piloto inglês Ken Milles, um veterano da Segunda Guerra.

Na espetacular corrida de 53 anos atrás, a Ford não apenas superou a Ferrari, como Henry Ford II saboreou o terceiro lugar de Enzo Ferrari, cuja equipe ficou atrás da alemã Porsche. E agora o duelo virou filme que estreou ontem.

Os protagonistas na pele dos pilotos são Matt Damon (Shelby) e Christian Bale (Miles) e o diretor é James Mangold, conhecido pelos longas Wolverine (2013) e Logan (2017). O filme está em exibição nas três redes de cinema de Natal.

Numa entrevista, o ator Matt Damon disse "parafraseando Ernest Hemingway, toda história verdadeira termina em morte, e o filme se baseia numa história verdadeira". E depois acrescentou, "bom, mas é uma história muito bonita".