BLOG DO ALEX MEDEIROS

20/11/2019
O primeiro brasileiro com 1.000 gols

No princípio, a bola era sem forma e havia trevas e abismos nos campos; e o espírito de Pelé ainda não se movia sobre a face da grama. Era o começo do século XX e quase ninguém percebia a separação entre a luz e a escuridão no futebol mundial.

Os primeiros passes em solo brasileiro não repercutiam mais do que a alguns quarteirões dos poeirentos e improvisados terrenos para a prática de outros esportes. Os primeiros craques jogavam num velódromo.

Pouco antes do espocar do século XX, um alemão chamado Oscar conheceu uma mulata, a lavadeira de roupa de nome Matilde, e com ela se uniu em paixão e depois em matrimônio.

Era a nova relação de um calcasiano puro sangue com uma negra, unidos por espontaneamente por amor e não mais como nos assédios e estupros das velhas fazendas de café. Em 18 de julho de 1892, a tabelinha cromossomática de Oscar e Matilde gerou um garotinho.

Era um menino mulato com olhos verdes, a miscigenação pintando o quadro étnico de um novo Brasil; a Europa e a África unidas nos trópicos. Foi batizado com um nome de rei, Arthur. E no registro civil o sobrenome do pai germânico.

Quando o novo século já avançava pela primeira década, Arthur Friedenreich se destacava entre os alunos do aristocrático Colégio Mackenzie não somente pela mistura na pele e olhos, mas pela intimidade com uma bola de futebol.

Fora da aula, o virtuosismo daquele menino, filho do casal alvinegro, logo se espalhou pelo bairro italiano do Bexiga. Fried, como era chamado nas peladas de rua, jogava o esporte dos ingleses de uma forma nunca vista em São Paulo.

O pai o levou para o Germânia, rico clube da colônia alemã e da alta sociedade paulistana. Nas genéticas de Oscar e Matilde, o jovem encantava platéias com seu estilo que reunia numa mesma jogada as técnicas do futebol e do rugby.

Popularíssimo em solo europeu, o rugby tinha como principal tática o uso da força para romper colunas de adversários, como um aríete humano, enquanto o futebol destacava o drible de corpo para se desviar do combate direto.

Alto, pernas longas e finas, elegante com camisas de seda e extremamente habilidoso no toque da bola, Friedenreich não demorou a ganhar fama entre a massa de torcedores que cada dia aumentava em torno daquele novo esporte.

Em 1910, contrariando os desejos paternos, troca o Germânia pelo Ipiranga e vira artilheiro do campeonato local. Em 1912, num combinado paulista, Friedenreich joga contra a seleção da Argentina e marca na vitória por 4 x 3.

Dois anos depois, a primeira seleção brasileira joga no Rio de Janeiro, no campo do Fluminense, contra o time inglês Exeter City. A fama de Friedenreich rompe as fronteiras paulistas com um show de bola na vitória por 2 x 0.

Na apresentação, assistindo os ingleses tentando derrubar os brasileiros, que escapavam imitando o suingue dos dribles de Freidenreich, mulheres nervosas torciam e mordiam suas luvas, num gesto que fez surgir o termo "torcida".

Em um tempo ainda sem rádio, sem a noção moderna do celebrismo pessoal, Fried conseguia provocar com seus gols, inúmeros gols, uma popularidade espantosa. Seus feitos em campo eram conhecidos até na região Nordeste.

Em 1919, já consagrado como o ídolo maior do Brasil e craque do Paulistano, tornou-se herói da primeira conquista internacional da seleção do Brasil, no Campeonato Sulamericano, vencendo a final contra o Uruguai.

Após a glória seminal brasileira, três gênios da música resolveram compor um hino para o gol de Friedenreich: Benedito Lacerda, Pixinguinha e Nelson Ângelo gravaram o chorinho "Um a Zero". Fried foi a gênese do que viria a ser o País do Futebol e marcou incríveis 1.329 gols.