BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/11/2019
Deus existe, seu nome é Petrunya

O filme (com o título aí de cima) estreou no Festival de Berlim, foi razoavelmente festejado, e foi exibido na 43º Mostra Internacional de São Paulo, encerrada no último dia de outubro. Também não mereceu tanto destaque na imprensa nacional, exceto as obrigações dos pontos de pauta de alguns cadernos culturais. Trata-se de uma obra dirigida por uma cineasta da Macedônia, baseada em fato real e com uma atriz que jamais fez cinema.

Entrou em cartaz em algumas salas de algumas cidades europeias, mas já pode ser assistido por quem tem em casa aqueles aparelhinhos mágicos do tipo IPTV, TV Box, HTV ou BTV (sem falar nos chineses e coreanos). É sobre um caso ocorrido numa pequena cidade da Macedônia, em 2009, envolvendo uma balzaquiana formada em história, que busca trabalho pressionada pelas cobranças da mãe, e que provoca inocentemente uma polêmica nacional.

Petrunya, interpretada pela neófita Zorica Nusheva, está voltando de uma desesperançosa entrevista de emprego quando percebe uma tradicional cerimônia religiosa organizada pelo pároco local e onde só participam homens.

O rito consiste numa cruz atirada no rio pelo padre e que leva todos os varões a mergulharem nas águas para resgatar o objeto sagrado. Aquele que apanhar a cruz terá dias de bonança, boa sorte, saúde e prosperidades no futuro.

Ocorre que na sua caminhada letárgica, a moça é atraída fortuitamente para a cerimônia e também se atira no rio. O impensável acontece, Petrunya nada mais rápido que os rapazes, chega ao fundo primeiro e resgata o crucifixo.

E então, o que poderia ser um fato novo por celebrar, uma heroica surpresa feminina, se transformou numa ousadia intolerável para o domínio masculino e para os preceitos religiosos. A mulher em grave delito contra a comunidade.

Os concorrentes derrotados saem da água furiosos, como pode uma tradição ser quebrada tão acintosamente por uma figura do sexo oposto? Aquela violação das regras e de um ritual histórico não poderia passar incólume.

Petrunya, sobressaltada, encara os resmungos das senhoras, os desaforos dos rapazes, as ameaças civis e eclesiásticas, o preconceito generalizado enraizado na sua pequena cidade destinada a servir o sectarismo da crença.

Se sua mãe e tantos cobravam-lhe um afazer, ela decide lutar por seu prêmio é o melhor trabalho a executar, mesmo diante da forte oposição coletiva. E ela vai em frente disposta a preservar consigo a cruz que conquistou sozinha.

O caso real poderia se restringir ao folclore local, se perder na história como uma simples ocorrência num errado dia em que uma moça se atirou no rio e se meteu entre os homens, vencendo-os na corrida submarina em busca da cruz.

Mas a diretora Teona Strugar Mitveska, que jamais tinha ido além de curtas metragem poucos anos antes do episódio, e que lembrou dos esforços de uma irmã jornalista enfrentando obstáculos para publicar o fato, decidiu narrar.

E deu uma dimensão universal à questão feminina da protagonista, reforçando também a própria experiência de ser uma das únicas quatro ou cinco mulheres dirigindo cinema na Macedônia. Fez da luta de Petrunya a de qualquer mulher.

O título veio da negativa de um bispo quando sua irmã tentou entrevistar: "não falarei disso, pois sei que Deus existe e é homem". Teona com sua teocracia revisionista fez outra gênese. O poderoso existe e ele se chama Petrunya.