BLOG DO ALEX MEDEIROS

30/11/2019
Um muro há 40 anos

Parecia que todas as paredes dos sentidos tremeram quando o Pink Floyd ergueu aquele muro sonoro diante de nós. Era um rock concreto, metálico e atômico, uma mistura de notas de angustiantes sensações representativas da vida pregressa e hodierna de Roger Waters, o conceituador daquele álbum espetacular e de efeito subversivo nos ouvidos da minha geração que chegava apenas aos vinte anos e tinha um acúmulo de sons e tons para experimentar.

The Wall foi lançado num dia como hoje, 30 de novembro do ano 1979, e chegaria por Natal em meados de 1980 antecedido pelas notícias do fenômeno de vendas alcançado pelo mundo afora. Não sei precisar em que situação geográfica vi o LP pela primeira vez, mas lembro de tê-lo manuseado na loja Discol, de frente ao Cinema Nordeste, e de vê-lo nas mãos de algum dos meninos da confraria Esquina do Rock, durante as resenhas na Candelária.

Não considero o impacto de The Wall na minha geração (pelo menos em mim) como algo estranho, por maior que tenha sido o alumbramento. Porque eu já era um tanto íntimo do Pink Floyd desde Dark Side of the Moon, aos 15 anos.

Foi o disco de 1973 que me tirou dos limites da idolatria por Beatles e Bob Dylan. Fui apresentado à banda numa noite na casa de Raul Cruz, do Alcatéia Maldita, em Lagoa Seca, acompanhando meu irmão e uma trupe de malucos.

Depois, já aos dezoito, veio o álbum Animals, de 1977, com aquelas chaminés na capa que sugeriam a vida operária britânica. Foi a turnê daquele disco que serviu de fábrica para Roger Waters conceber e construir o álbum The Wall.

Era julho de 1977, o mês que no futuro teria o dia 13 mundialmente dedicado ao rock, quando no último concerto, em Montreal, Canadá, um grupo de fãs irrita Waters a tal ponto que ele reage cuspindo na cara de um dos caras.

Aquilo foi só a gota d'água (acompanhada de proteína, cálcio e ferro) numa relação que já vinha aborrecendo Waters e o fazendo a imaginar um muro entre a banda e seus fãs mais entusiasmados. Junte-se a isso suas neuroses.

E The Wall foi o conceito disso tudo, uma ideia que deu vida própria ao álbum, uma epifania de rock em tom de ópera paranoica, ditatorial, subversiva, ensandecida e avassaladora. Um grito de liberdade contra monstros internos.

A primeira parte do disco é o alicerce do muro protetor, começando num rompimento brusco do passado com o futuro que era aquele presente do grupo. A voz maviosa da cantora de jazz interrompida pela sonoridade iônica.

Na explosão de guitarras, percussão militar e sintetizadores, um bombardeio a destruir o atavismo de uma paternidade invasiva, a vilania de professores, a humilhação diante do sistema educacional. Um rock-panfleto em quatro faces.

Ouvir The Wall aos 20 anos não foi fácil, como nem é agora, aos 60. Mesmo a gente tendo anteriormente experimentado Sgt. Peppers, dos Beatles, e aquelas loucuras de The Velvet Underground e de Jimmy Hendrix Experience.

Quarenta anos depois, o LP ainda extasia e remove os tijolos das nossas emoções adolescentes. Bombas, acordes acústicos, toques de telefone, corais infantis, aeronaves e sintetizadores sombrios, guitarras agonizantes, my god!

O desespero de Roger Waters em comunhão diabólica com o solo divino de David Gilmour, tudo é um muro delimitando o alcance da nossa imaginação, uma divisória mágica entre o mar e o abismo, entre o mergulhar e o despencar.

É preciso dizer, tantos anos depois, que o álbum conceitual do Pink Floyd é perfeito em todas as nuances técnicas e experimentais, uma obra praticamente sem similar na trajetória do rock progressivo do século XX. Como esquecer?