BLOG DO ALEX MEDEIROS

02/12/2019
Trés bien, Messi!

O argentino Jorge Valdano, o craque filosófico campeão do mundo em 1986 e amigo de Cortazar, Mario Benedetti e Eduardo Galeano, contou um episódio ocorrido na Copa do México em que sua seleção conquistou o bicampeonato. Durante a competição, os jornalistas abordavam os principais jogadores e invariavelmente perguntavam quem seria a sensação do torneio. Platini respondia "Zico", Zico dizia "Platini", e Maradona afirmava "Maradona".

Lembro sempre dessa história quando busco encontrar paralelos entre Maradona e Messi. E quando encontro semelhanças no talento ludopédico, acabo sempre achando a abissal diferença na postura pessoal, no caráter e no espírito ético. Porque aquela resposta de Don Diego em 1986 ninguém jamais ouvirá saindo da boca de Lionel, um gênio até na gentileza. Colecionador de marcas, sempre revelou seu voto nos outros, como em Ronaldo e em Mané.

É incrível como um artista da bola consegue atravessar mais de uma década exibindo um futebol tão majestoso e tendo um comportamento de tamanha humildade. Nessa matéria, não se pode compará-lo ao rei Pelé, mas ao Zico.
Tenho sessenta anos de vida e mais de cinquenta de paixão pelo futebol. Ouvi, vi e li sobre as coisas fantásticas dos muitos craques que passaram pelos gramados do mundo, são às centenas aqueles que produziram encantamento.

Estão na memória e no acúmulo de livros, revistas, jornais e cds as histórias maravilhosas sobre Zizinho, Di Stefano, George Best, Garrincha, Puskas, Didi, Bob Charlton, Francescoli, Stanley Mathews, Heleno, Schiaffino e Tostão.
Sou grato aos deuses do futebol por me por no mesmo século de Pelé, Cruijff, Eusébio, Bobby Moore, Zico, Maradona, Dirceu Lopes, Leônidas, Mazzola, Beckenbauer, Figueroa, Gerson, Cubilla, Rivellino, Van Basten e Romário.

Dos luminares do esporte bretão que coleciono nas gavetas do afeto e da idolatria, tenho uma alegria especial pelo futebol de Lionel Messi, simplesmente por me oferecer no século XXI a arte que o mundo achava extinta no XX.

Conto nos dedos e na contemplação os anos, os meses e os dias das exibições de gala do craque que deu ao Barcelona dimensão mundial além dos anos anteriores à sua chegada na Catalunha. Deu glamour e multiplicou títulos.

Desde 2005, quando passou a atuar no time principal, até hoje, o tempo transcorreu numa rotina de pura magia, com ele exibindo semanalmente jogadas, dribles e gols de gênio. Numa longeva e descomunal periodicidade.

Não esqueço. Era novembro do ano germinal, o chopp gelado descendo na garganta no ar frio espanhol. O Santiago Bernabeu lotado de torcedores merengues, os catalães espremidos num canto, e os heróis no superclássico.

Ele entrou no segundo tempo, garoto, cabelos longos, e danou-se a aterrorizar a zaga blanca. O jogo já estava definido, verdade, mas ficou claro que Deco, Ronaldinho e Xavi teriam a partir dali a sua infalível versão de Dartagnan.

E vieram em sequência fantasmagórica os espetáculos de Messi em campo, em todos os campos, fazendo chover, rompendo limites e marcas, algumas históricas, acumulando o mais incomum acervo de prêmios individuais.

Seis Bolas de Ouro de melhor do mundo por duas vezes, um rei das assistências, um exímio maestro, mais de 700 gols. Em 2019, mais gols na Europa, mais gols numa liga, mais gols na Champions, mais gols de faltas, mais hat-tricks.

E 15 anos de uma epifania que parece não ter fim. Outra vez, Valdano disse "tento não comparar Messi a Maradona, mas Maradona não está ajudando". Eu parei de comparar faz tempo. Depois de Pelé, ave Messi!