BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/12/2019
Dias de Cruzeiro mágico

O Cruzeiro caiu. Deixou o seleto clube dos intocáveis, dos grandiosos. Se despediu do São Paulo, do Santos e do Flamengo de forma lamentável, humilhante, diante da sua imensa torcida a quem já deu tantas glórias. Vai encarar a periferia onde nada é tão azul como suas cores.

Foi um momento triste ver um time de tanta história se arrastar nos gramados, principalmente no Mineirão que se ergueu há 45 anos como vitrine da geração de um gênio.

Sou grato aos deuses do futebol por ter testemunhado o talento de Tostão num tempo em que somente ele desafiava e ousava bagunçar o intocável reinado de Pelé.

O histórico camisa 8 do Cruzeiro entre 1963 e 1972 comandou com apenas 19 anos uma campanha magnífica que culminou com o título da Taça Brasil de 1966, humilhando o Santos em duas partidas no Mineirão e no Pacaembu, respectivamente por 6 x 2 e 3 x 2, algo inimaginável pra época.

Quando vi as lágrimas dos cruzeirenses na TV, as imagens terríveis da violência gerada na raiva e no recalque, lembrei daqueles dias em que o time de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Natal, Zé Carlos encantou até outras torcidas.

Em 1966 foi a primeira vez que vivenciei uma Copa do Mundo; era moleque de 7 pra 8 anos, brincando de futebol com tampinhas de garrafas no lugar de botões e ouvindo ao longe o rádio ABC de papai transmitindo jogos do Brasil.

A seleção de um Pelé já monarca, com Garrincha em clima de despedida e com o garoto Tostão na condição de promessa, tropeçou na genialidade de um príncipe africano na seleção de Portugal e voltou de Liverpool envergonhada.

Meu irmão adolescente acompanhava os jogos junto com sua tribo em autofalantes do Grande Ponto, e supriu a derrota na Copa fantasiando espetáculos com as tampas dos times no estádio que era a mesa de mamãe.

As tampinhas favoritas eram as do Santos, Botafogo e Cruzeiro, onde estavam Pelé, Gerson e Tostão, pela ordem. Na verdade, eram tampinhas das garrafas de Água Mineral Santos Reis, Guaraná Brahma e Água Tônica Antarctica.

Empurradas com os dedos em direção a um grão de feijão branco, tentávamos repetir as jogadas da Taça Brasil que principalmente meu irmão memorizava das transmissões radiofônicas. Ele adorava fazer gols com Jairzinho e Natal.

A tampinha de Natal, o ponta do Cruzeiro fantástico, era amassadinha em cima e arrebitada de lado, que a gente imaginava servir para chutes de efeito no ângulo das traves de taliscas das peças de tecidos da loja As Nações Unidas.

Nas manhãs, tardes e noites intermináveis em que reproduzíamos os confrontos da antiga Taça Brasil e do campeonato potiguar, evidente que as tampinhas dos craques famosos eram as mais manuseadas em direção ao gol.

E a bela geração de Tostão teve sua apoteose na velha mesa de madeira, ocupada após as refeições num ritual e cerimônia dignos da CBD ali representada pelos dois garotos, um pivete de 7 e um aborrecente de 16.

O Cruzeiro daqueles anos comparado ao atual, é como um raro marlim azul em relação a um baiacu cinzento. Tostão e Dirceu Lopes das minhas tampinhas valem mais do que qualquer Fred e Thiago Neves torneados em madrepérolas.