BLOG DO ALEX MEDEIROS

14/12/2019
Obra-prima do punk rock

Em maio de 1979, a conservadora Margareth Thatcher ascendeu ao poder na Inglaterra, impondo uma grande derrota aos trabalhistas de James Callagham e estabelecendo um novo governo sem protecionismo do Estado e desnacionalizando estruturas públicas.

Num estúdio do bairro Plimaco, o quarteto da banda The Clash iniciava ensaios para um novo LP e em agosto a bolacha começaria a ser gravada para ser lançada no final daquele ano.

Dois anos antes, o cineasta americano Martin Scorsese andava por Londres curtindo férias após o êxito de Táxi Driver. Ao voltar para Nova York, comentou com amigos que ouviu uma canção inglesa chamada Janie Jones, que era uma das mais lindas que já ouvira.

Era do The Clash e contava a história de um cara apaixonado por rock e por uma menina chamada Janie. A formação da banda era Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Nicky Headon.

Assim como Thatcher rompia o protecionismo trabalhista, os rapazes estavam envolvidos na rebelião interna do rock que gerara o estilo punk. O ponto alto disso seria em 14 de dezembro de 1979, uma sexta-feira, com o novo disco.

O álbum duplo "London Calling" chegou às lojas na expectativa de um lance revolucionário e com uma novidade comercial: tinha o preço de um LP simples. Não seria exagero dizer que os caras inventaram há 40 anos a "Black Friday".

O disco arrebentou a cena britânica numa catarse, e num ano diabólico com Sid Vicious (do Sex Pistols) matando a namorada Nancy; um deputado explodido por bomba; e o "estripador de Yorkshire" à solta matando prostitutas.

Além disso, a banda vinha de uma tacada errada no aspecto de marketing nos EUA e precisava recuperar terreno. Obviamente dependia do conteúdo do álbum, mas já na capa fazia o apelo, em uma referência gráfica a Elvis Presley.

Uma das mais icônicas capas do rock, a foto tem o baixista Paul Simonon atacando o chão com a guitarra, imagem clicada no show de Nova York pela fotógrafa Pennie Smith e que remete ao disco de estreia do rei Elvis, em 1956.

Quem ouviu nos últimos anos a faixa 1 em propaganda de celular, não tem ideia do impacto há 40 anos quando as guitarras roncaram e a bateria tremeu dimensionando as letras politizadas de uma rebeldia punk com outro método.

O ritmo eletrizado da segunda faixa, que deu alicerce para as principais bandas do rock brasileiro dos anos 80, foi um divisor de águas entre o punk tosco de antes e o punk peculiar do The Clash, abrindo passagem para seu domínio.

Se o líder Joe Strummer insistia no mercado americano e os outros sonhavam em ser uma grande banda de rock, o lançamento de "London Calling" garantiu os desejos de todos eles: o rock e o punk nunca mais seriam os mesmos.

Não apenas foi o mais emblemático álbum do fim dos anos 70, como fez da banda a melhor do mundo na década que começava. The Clash misturou rock ‘n' roll, punk rock, funk, hip-hop e reggae, e sedimentou tudo que veio depois.

A revista Rolling Stone reagiu com escancarada idolatria: "o álbum London Calling celebra o romance da rebelião do rock em termos épicos e grandiosos, mergulha profundamente na lenda do rock, na história, na política e no mito".

A partir daquela sexta-feira, 14 de dezembro, The Clash quebraria a ortodoxia punk do Sex Pistols, Ramones, Misfits e Dead Boys, entre tantos, para impor nas conjunturas futuras um som e uma postura consagrados numa obra-prima.