BLOG DO ALEX MEDEIROS

17/12/2019
Estela, estrela da Lei

A edição da revista O Cruzeiro (a mais importante do País naqueles tempos) com a reportagem especial sobre o final da caça ao terrorista baiano Carlos Marighela, chegou às bancas com a data de 20 de novembro de 1969.

Na capa, a enorme foto da bela cantora e jornalista paranaense Marisa Rossi (sucesso na época cantando canções italianas no rastro do fenômeno Rita Pavone). E abrindo 9 páginas sobre as perspectivas do verão 1970 no Rio.

A morte do guerrilheiro comunista veio a seguir em 10 páginas, mas sem as cores da matéria do verão. Os detalhes da operação organizada pelo delegado Sergio Fleury narrados por Valdir Zwetsch, um gaúcho que estreava em São Paulo e a partir dali seria um dos grandes repórteres também da revista Realidade, tendo acompanhado os Irmãos Villas-Bôas nas missões pioneiras à Amazônia e testemunhado pela primeira vez um Kuarup, a festa dos mortos.

Daquela operação que interceptou o Fusca azul, chapa SP 246928, que serviu de encontro entre Marighela e dois frades dominicanos, uma outra morte no tiroteio nunca fez parte da narrativa vitimista da esquerda de ontem e de hoje.

Na equipe de policiais destacada para prender ou matar o terrorista, havia agentes do setor de inteligência da Polícia Civil e duas jovens mulheres, uma delas com apenas 22 anos e convocada para se passar por uma namorada.

Fazia apenas um mês que Estela Borges Morato tinha assumido a função de investigadora, após passar em concurso; nem tinha recebido ainda o primeiro salário. Como a agente 2706, ficou disfarçada num carro com um "namorado".

Fleury orientou o falso casal a ficar abaixado quando o carro de Marighela e os outros que levavam seus guarda-costas entrassem na Alameda Casa Branca, no Jardim América, o local marcado para um contato com os dois religiosos.

Aliás, o petista Frei Beto nunca aceitou admitir que frei Ivo e frei Fernando, seus amigos à época, colaboraram com a emboscada. Nem a esquerda aceita que a linda Estela foi a primeira mulher morta combatendo os seus crimes.

No fogo cerrado que ocorreu após a voz de prisão, um tiro dos comparsas de Marighela acertou a cabeça da jovem, que foi levada ao Hospital das Clínicas, da USP, suportou três dias o grave ferimento, mas faleceu em 7 de novembro.

A missão de prender Marighela foi o primeiro e último serviço de Estela Borges no DOPS. Acabara de deixar o emprego num banco, e ao ser nomeada numa função burocrática pediu ao chefe imediato para participar de ações na rua.

Se despediu dos colegas com uma crônica no jornal do Sindicato dos Bancário, onde disse: "Eu gosto deste século, cheio de vivacidade e colorido... Quero este mundo assim como ele é, com sonhos para sonhar e lutas para lutar".

Mais adiante: "As dificuldades serão superadas e a vida valerá a pena ser vivida, afinal já conquistamos a Lua". Seu caixão foi levado ao carro de bombeiros pelo então governador Abreu Sodré e pelo general Viana Moog.

No percurso pelas ruas paulistanas, despencou uma chuva torrencial. No cemitério, centenas de policiais atiraram para o alto dando adeus a colega agente 2706. O marido que conhecera numa igreja se encharcou de lágrimas.

Coincidência do destino, a canção de maior sucesso naquele final de 1969 era "Stella", do cantor paraguaio Fábio (Juan Senon), amigo de Tim Maia e Carlos Imperial. A música inspirou a vinheta da Rádio Globo, "rádio gloooooboooo".

Nos rádios do País, principalmente São Paulo e Rio, tocava o tempo inteiro: "Stella, em que estrela você se escondeu, em que sonho você vai voltar... Primavera não se esqueceu, em mim repousa seu olhar, quem dera ver você".