BLOG DO ALEX MEDEIROS

18/12/2019
O menino do tambor

Em 1959, o escritor alemão, Günter Grass, estreava como romancista lançando o livro "O Tambor", uma crítica sócio-política que remetia à realidade da sociedade alemã. Era sobre um menino, Oskar, que ganhou um tambor e após alguns traumas parou de crescer.

Vinte anos depois, foi produzido um filme sobre a obra com o ator suíço David Bennent, de 11 anos. O filme, além de popularizar mais o best-seller de Grass, foi controverso nas cenas de sexo com o garoto.

Quando vi o filme, aos vinte e poucos anos, impossível foi não lembrar de uma velha marchinha de carnaval, que mamãe cantava na minha infância. Um dos autores foi o potiguar Hianto de Almeida.

Gravada em 1954 pela cantora Marlene, uma das rainhas do rádio, cantava a história de Zé Pequeno, um soldado baixinho que espantava plateias e tinha sorte com as mulheres por causa do tambor que batia, apesar da desproporcionalidade com seu tamanho.

Ontem, lendo as notícias culturais em sites europeus, como sempre faço, lembrei de novo de tudo; do filme sobre a Alemanha e da voz de minha mãe cantarolando no fogão a música do pequeno soldado e seu tambor tão grande.

A Europa está encantada com um menininho de apenas 3 anos, chamado Hugo Molina, que venceu na noite de segunda-feira a versão espanhola do programa Go Talent, uma marca britânica que se espalhou pelo continente.

O reality show cultural, tão recheado de grandes apresentações musicais em seus doze anos de existência, teve o público e jurados da Espanha surpreendidos com o pequeno Hugo batendo espetacularmente um tambor.

Nada nos gestos e no vocabulário do menino indica alguma característica que não seja estritamente de uma criança de dois anos (sim, quando ele iniciou nas eliminatórias do programa do canal Telecinco, ainda não tinha feito três anos).

O que espanta e faz de Hugo Molina um ser especial é a extrema habilidade com as baquetas, a coordenação rítmica acompanhando bandas marciais e corais, e uma capacidade incrível de percepção que expõe um ouvido absoluto.

Antes e depois de tamborilar seu instrumento, ele é apenas um garotinho tímido, dependente do apoio físico e emocional do pai, e com manifestações orais restritas aos monossílabos. A frase repetida é "eu toquei bem o tambor".

O público no auditório e as pessoas diante da televisão foram inebriadas por aquela criança acompanhando com precisão no tempo métrico as marchas apresentadas nas edições do Go Talent. E ele avançou uma após outra.

Na história da Guerra da Independência da Espanha há uma lenda que fala de um jovem soldado chamado Isidro Casanovas que começou a tocar seu tambor quando o exército de Napoleão avançou sobre as cordilheiras dos Pirineus.

Para as tropas espanholas, era notório que os invasores estavam em muito maior número, mas o rufar do tambor daquele soldado, que ficou conhecido como "Tamboreiro do Bruch, gerou efeito psicológico no exército napoleônico.

Mais de dois séculos depois daquele "rataplan" (os mais velhos entenderão o termo), o garotinho Hugo Molina levanta de novo o orgulho espanhol se tornando o mais jovem vencedor do Go Talent. Ele, sozinho, e o seu tambor.