BLOG DO ALEX MEDEIROS

20/12/2019
Ken Russell, ácido e polêmico

Aquele Eric Clapton como um Cristo de guitarra, tendo atrás de si em gigantismo gráfico a imagem quase imaculada de Marilyn Monroe ficou como contraprova do batismo alcoólico dos meus 16 anos, quando do lançamento do filme "Tommy".

O diretor inglês Ken Russell rezou na liturgia roqueira dos caras do The Who para levar às telas a ópera-rock lançada pela banda em 1969 e que estourou nas bilheterias como uma missa de pura rebeldia musical.

O rock maldito parido em Londres tinha tudo a ver com o diretor pré-cinquentão de cabelos longos, que antes já houvera surpreendido os caretas do mundo com uma cena de sexo selvagem entre Oliver Reed e Vanessa Redgrave diante da cruz cristã.

A Warner Bros censurou partes do idílio blasfêmico de "Os Demônios", lançado sem cortes em 2012 e sendo encaminhado ao rico acervo do centenário e renomado British Board of Film Classification.
No ano em que o The Who lançou a ópera Tommy, Russell enrubesceu faces conservadoras com

Mulheres Apaixonadas, jogando no ar uma cena de luta livre com Alan Bates e Oliver Reed, ambos nus. Não tão feio como no MMA.

Violência sempre foi a empada dos seus dramas, que ele enfeitava com as cerejas da crítica ao cotidiano e com elegias pessoais, como fez filmando as vidas de Tchaikovsky, de Liszt, de Rodolfo Valentino e até do Uri Geller.

Deve ter bebido na fonte dos traumas da infância ao testemunhar as agressões do pai sapateiro contra a mãe, que o carregou para os ambientes da sétima arte, aonde iniciou com uma máquina fotográfica, após ser militar na RAF.

No ano que nasci, 1959, Ken Russel entrou na BBC de Londres para trabalhar com programação e documentários. Em 1967 e 1970 louvou Isadora Duncan com "A maior dançarina do mundo" e Richard Strauss com "Dança dos 7 véus".

O primeiro longa, em 1963, foi uma comédia tipo humor francês, de pouca repercussão, um aviso para desviar pelos caminhos dos dramas. Mas com "O Cérebro de 1 Bilhão de Dólares", com Michael Caine, ganhou público e críticos.

O sucesso de verdade veio só em 1969, com "Mulheres Apaixonadas", da obra do modernista D.H. Lawrence. A atriz Glenda Jackson, que seria esposa de Tchaikovsky em 1970, ganhou um Oscar e o filme teve outras três indicações.

Nascido em 1927, Russell virou uma usina de trabalho depois dos 40 anos, produzindo em série nos anos 70, quando o rock progressivo britânico escapou da dicotomia "Beatles x Rolling Stones" e exportou dezenas de outras bandas.

Quando o longa "Os Demônios" atingiu o topo das bilheterias em Londres, o crítico Alexander Walker escreveu no tablóide Evening Standard que o filme era "monstruosamente indecente". Russel o agrediu com o próprio jornal.

Já com problemas de saúde, ele demonstrou manter o mesmo espírito controverso de juventude ao declarar no diário The Guardian que se arrependeu de não ter enrolado a edição do Evening com uma "barra de ferro".

Deu uma saída de cena, já não tinha como mexer chaves para abrir portas de produtores. E com 80 anos, em 2007, aceitou descer ao purgatório televisivo do Big Brother britânico, mas sem perder a chance de brigar com um colega.

Ken Russell morreu no final de 2011 aos 84 anos. Os tablóides noticiaram que estava dormindo. Em se tratando de um ícone da contracultura, há controvérsias. Acho que estava revendo "Tommy" e o cansado coração parou numa pausa musical para retomar nas estrelas um andamento infinito.