BLOG DO ALEX MEDEIROS

24/12/2019
O Barato de Iacanga

Assim como ocorreu nos primórdios do Universo, o mundo pop também sofreu ondulações na curvatura do seu espaço-tempo. Foi há 50 anos, quando a explosão do rock em Woodstock propagou as ondas gravitacionais que influenciaram tudo ao redor do planeta.

O festival numa fazenda de Nova York não foi o primeiro, mas foi o de maior expressão e o que inspirou iniciativas semelhantes e gerou cópias, grandes e pequenas, pelos anos seguintes.

Aquelas ondas chegaram em Natal, por exemplo, reunindo uma geração roqueira na concepção do Festival do Sol, em 1973, apenas quatro anos depois da loucura americana em Bethel.

Por iniciativa do casal Jorge Guilherme Medeiros e Fátima Barreto (irmã do jornalista Emanoel Barreto) que conseguiu o apoio do governo Cortez Pereira - via primeira dama Aída Cortez - com a cessão do estádio Juvenal Lamartine e apoios logístico e financeiro.

Na coluna de amanhã retomarei a história do primeiro festival de rock em Natal, que atraiu gente dos estados vizinhos em novembro de 1973, transformando o gramado do velho estadinho do Tirol numa versão potiguar do Woodstock.

Foi exatamente dois anos depois de Natal que numa fazenda do interior de São Paulo, em Águas Claras, um festival se transformaria numa experiência similar ao que ocorreu durante três dias de agosto de 1969 na fazenda de Nova York.

O festival de Iacanga de 1975, iniciativa de um jovem de 22 anos, chamado Antônio Checchin Júnior, o Leivinha, se transformou num divisor de águas do movimento pop e hippie no Brasil, a primeira explosão de rock a céu aberto.

Aquela aventura está pronta e espetacularmente resgatada no belo documentário dirigido por Thiago Mattar, um jovem jornalista que estreia como cineasta e já nos dando uma contribuição histórica de extrema relevância.

Em "O Barato de Iacanga", já disponível na Netflix, temos a reconstrução de uma conjuntura cultural ímpar na trajetória do pop brasileiro e uma revelação da força do movimento hippie num momento de divisão ideológica no Brasil.

Nos muitos depoimentos, a figura do velho guru da geração contracultura, Luiz Carlos Maciel, botando os pingos nos is e afirmando que entre a direita e a esquerda daqueles anos havia uma terceira via de som e paz com os hippies.

Milhares de jovens se deslocaram para Iacanga, de ônibus, de carona, de motocicleta e até a pé, transformando o enorme terreno da família de Leivinha numa versão da fazenda Bethel, com direito a sexo, drogas e rock ‘n' roll.

Entre os muitos grupos e artistas que atenderam ao chamado de uma comunhão sonora e pacífica, a banda Novos Baianos, que dois anos antes havia sido a principal atração no Festival do Sol realizado aqui em Natal.

A Fazenda Santa Virgínia, local do festival de Iacanga, virou um acampamento gigantesco, com uma multidão de jovens espalhada nos mesmos moldes do que ocorreu em Woodstock. Os organizadores não esperavam tanta gente.

O documentário na Netflix é rico em imagens originais, o que nos leva a indagar como que aquele mundo analógico conseguiu nos deixar intactos tantos registros fantásticos de uma aventura tão improvável e inimaginável.

Há cenas da primeira edição e das posteriores, nomes de peso da MPB e ícones do nosso rock primordial. Ver João Gilberto interagindo com centenas de malucos, sem resmungar, é igual curtir Hermeto flautando para insones.

O Festival de Águas Claras foi a gênese da reverberação hippie no contexto musical nacional, gerando filhotes que um dia culminaram no Rock in Rio. Assim com o nosso Festival do Sol que abriu caminhos para o Festival do Forte.