BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/12/2019
O escurinho da intervenção

O presidente Jair Bolsonaro seguiu a tradição dos mandatários antecedentes e cagou o cibazol em plena ceia natalina, ao assinar o miserável decreto que estabelece as tais cotas mínimas das produções nacionais nas salas de cinema do Brasil.

Das tantas aberrações protagonizadas pela intervenção do Estado no comércio privado, o serviço de exibição cinematográfica é o mais desrespeitado e violentado por esse republicanismo travestido de politburo.

Investir e administrar uma sala de cinema no Brasil é das atividades privadas a mais complicada na cultura de ingerência do serviço público nas empresas alheias.

Aqui se trata o exibidor de filmes como um detentor de concessão pública, sempre exigido a corresponder o governo dando desconto em ingressos e veiculando produção publicitária de interesse da União e dos estados, como as campanhas de vacinação e convocação do voto obrigatório.

Os canais de televisão, as emissoras de rádio, os transportes de massa, por exemplo, que são concessões públicas, não são chamados ou obrigados tanto a exibirem comunicação governamental como ocorre com as salas de cinema.

A reserva de mercado imposta em favor do cinema nacional, disfarçada no discurso do apoio à cultura pátria, é uma sacanagem com os empresários do ramo exibidor, uma imposição que os transformam em repartições públicas.

Enquanto isso, as grandes redes de televisão operam com todas as vantagens que uma empresa deve ter num sistema capitalista. As horas destinadas ao poder público são mínimas em relação aos atos invasivos nos cinemas.

E ainda aparecem na mídia e nas redes sociais os "analistas" engajados vociferando contra o "lixo das produções estrangeiras", e cuspindo baboseiras do tipo "a maioria dos brasileiros é exposta ao monopólio dos blockbusters".

Exposta porríssima nenhuma! O espectador gosta mesmo é das grandes produções, adora as aventuras; quem vai trocar Os Vingadores, Star Wars ou Homem-Aranha por narrativas ideológicas e noveleiras de baixa qualidade?

Países como Espanha e Argentina, que não se valem da famigerada cota mínima, acumulam prêmios internacionais em suas produções. E o que temos na (repito) nossa magra cinematografia? Premiozinhos em mostra paralela.

Se todos partidos políticos e todos os medíocres presidentes insistem na intervenção nos cinemas com suas cotas que lembram as bolsas-isso-e-aquilo, que estatizem logo todas as salas do País e as enquadrem na velha Ancine.

E se Bolsonaro está achando que antes estava correto, faça então a coisa melhor e decrete que o povo merece ver filme nacional de forma mais ampla do que nas salas. E obrigue a Globo a exibir Bacurau, Marighella et caterva.