BLOG DO ALEX MEDEIROS

01/01/2020
Folha 60 anos

O primeiro dia do ano é também aniversário de um dos maiores jornais impressos do Brasil. Hoje a Folha de S. Paulo completa exatos 60 anos de fundação, quando saiu às ruas paulistas em 01 de janeiro de 1960 inserindo-se na década de tantas mudanças e servindo de lente de aumento dos acontecimentos que iriam compor a agitada história da segunda metade do século XX. E a própria história do jornalismo nacional mudaria com o diário.

Não era bem um novo jornal que nascia, mas um novo estilo que surgia, a partir de uma trajetória iniciada em 1921 com o jornal Folha da Noite, sucedido quatro anos depois pela Folha da Manhã, até que em 1949 o título completou o ciclo de um dia inteiro e transformou-se em Folha da Tarde.

Então veio 1960 e as três históricas periodicidades juntaram-se numa palavra só, a comum entre todas, adicionada ao nome do estado e cidade berços do jornal.

A Folha, assim como o Jornal do Brasil, foram presença importante na minha vida estudantil na fronteira entre os anos 1970 e 1980. Tantas vezes repeti o percurso entre a Zona Sul e a Avenida Rio Branco em busca de folhear ambos.

Do que a memória ainda guarda, há as resenhas no bandejão da UFRN e depois a viagem de ônibus para a Cigarreira Tio Patinhas, quando um grupo de amigos esperavam no meio da tarde os pacotes de jornais vindos do aeroporto.

O saudoso Laércio Bezerra, dono da banca (ou algum emissário dele), chegava de táxi, retirava os jornais amarrados em barbantes e os atirava na calçada para o nosso avanço como abutres em carcaça. Valia a pena esperar.

A Folha era a preferida por seus posicionamentos convergentes com a visão de mundo da minha geração. Dos amigos de época, estavam por lá Homero Costa, Moisés Domingos, Themis Pacheco, Bosco Cariri, Lincoln Moraes.

Entre a chamada redemocratização e a campanha das Diretas, a postura do jornal paulistano serviu de estímulo a tudo que significava mudança de azimute nos novos rumos do País. E isso era mais evidente no seu caderno cultural.

Na minha fase de Pauliceia, quando minha casa em Cotia virou um consulado nordestino para assuntos etílicos e poéticos, uma assinatura da Folha alimentava a nossa sede de cultura e a nossa fome de abertura política.

Na turma em território estrangeiro, os médicos Petrônio Tinôco e Wilson Freire sorviam comigo as cervejas geladas e as páginas da Ilustrada. Dia desse, o pernambucano da tropa disse que "os jornais de Alex eram nosso Google".

Foi uma mania que contraí naqueles anos, os jornais iam se empilhando na sala, mas a pilha do caderno de cultura à parte, não misturado com política e tudo o mais. Por falar em política, eis a editoria que complicou a velha Folha.

Acho que esqueceu o verso de Belchior, ao não perceber que o novo sempre vence sobre o velho, mesmo com o fato de este velho já foi o novo no passado. Quando a redação esquerdizou naqueles anos, esqueceu dos contrapesos.

A Folha sessentona de hoje parece não querer perceber que aquela esquerda que ela ajudou a protagonizar-se é apenas agora um conglomerado de interesses corruptos e discursos demagógicos de apoio a aberrações fúteis.

A Folha sempre foi especialista em inovar e se renovar, mas abraçou velhas doutrinas que há muito faliram na Civilização. E com isso ela própria envelheceu, não no sentido da idade, mas ideologicamente. De qualquer forma, parabéns à velha senhora de São Paulo.