BLOG DO ALEX MEDEIROS

04/01/2020
Dois Papas e um Oscar

Pode minimizar o pregresso prêmio de O Pagador de Promessas, de 1962, e as resenhas de Cidade de Deus, de 2002. O cinema com a assinatura de um brasileiro agora se divide entre antes e depois de Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles e em cartaz desde dezembro na Netflix.

O que estou querendo dizer é que tecnicamente nunca houve tanta qualidade num filme sob direção nacional, assim como jamais tivemos uma ficção tão bem composta.

Meu prognóstico pode furar com larga distância da realidade, mas arrisco dizer que pela primeira vez o Brasil tem, sim, a chance de abocanhar uma estatueta do Oscar. É uma chance que sequer chegou perto nas demais vezes em que uma produção envolvendo profissional compatriota foi indicada na festa de Los Angeles.

A trama bem conduzida por Meirelles e o show de interpretação de Jonathan Pryce e Anthony Hopkins (dois monstros) são coisas magníficas.

Veja bem, estou me atendo aos aspectos técnicos e à composição de um roteiro fictício muito bem amarrado para prender a atenção da plateia, fatos essenciais para o êxito de qualquer obra cinematográfica. E o filme tem isso.

O diretor brasileiro conseguiu, guardadas as devidas proporções e histerias, aquilo que Orson Welles fez em 1938 com um texto de H. G. Wells interpretado no rádio. As pessoas estão acreditando piamente nos encontros dos papas.

No filme, o alemão Joseph Ratzinger e o argentino Jorge Bergoglio, que seriam ungidos Bento XVI e Francisco, se reúnem várias vezes em circunstâncias sem precedentes na história do Vaticano. E não há verdade literal nos diálogos.

O drama bem imaginado por Meirelles e o roteirista Anthony McCarten começa com o bispo argentino viajando à Roma para pedir permissão para se aposentar, mas é rejeitado pelo pontífice que confidencia desejo de renúncia.

Se a carta de demissão é verídica, o deslocamento até à comuna de Castel Gandolfo, residência de verão dos papas, bem como o teor da extensa conversa é pura criatividade baseada nas visões distintas dos dois religiosos.

E o que poderia ser um arrastado papo de dois idosos cansados, ganha na objetividade de Meirelles um tom nervoso e uma sequência de suspense e tensão em primorosas edições de flashbacks de ambos na eleição do concílio.

Os diálogos de Bento e Francisco se desenrolam numa ficção baseada em seus posicionamentos pessoais revelados em textos e discursos, assim construindo o debate de duas visões antagônicas sobre o destino da igreja.

A narrativa se localiza no período entre 2005 e 2013, quando Ratzinger e Bergoglio comporiam uma rivalidade eleitoral no Vaticano, ao mesmo tempo em que enfrentam os seus fantasmas internos, estes sim fatos verdadeiros.

A austeridade conservadora do alemão é atingida por corrupção e escândalos de bispos e padres, enquanto a bondade progressista do argentino se colide com um passado de relações com o regime militar do seu país a partir de 1976.

Dois Papas é quase um thriller silencioso na força do debate que expõe as vísceras católicas, e é uma obra de ficção que de tão bem elaborada ilude os incautos. E como cinema, coloca o Brasil pela primeira vez, de verdade, na fila do Oscar.