BLOG DO ALEX MEDEIROS

05/01/2020
A Festa de Santos Reis

Um dos motivos para meus pais saírem da estreitinha rua Padre Calazans, ali por trás da Igreja do Galo, foi uma sugestão médica para botar os filhos pequenos em contato com os ares praianos (mamãe me diria anos depois) numa tentativa de estimular os anticorpos e assim conter as infecções cutâneas que comumente surgiam, principalmente em mim. Acho que estávamos em 1965 quando papai anunciou a mudança para Santos Reis.

Até então, minha única relação com o mar foi num dia em que fui levado pela Rio Branco, depois Avenida Deodoro, até tomar o rumo da ladeira a partir do Hospital das Clínicas. Jamais esqueci a visão do céu se unindo com o oceano ao chegarmos no alto da balaustrada. No dia que mudamos para o menor bairro de Natal, os fatos mais marcantes foram dormir ouvindo ao longe o marulho e acordar na palpitante expectativa de ir brincar nas areias do Forte.

Por uns quatro anos, acho, vivi a tenra infância na Rua Berta Guilherme, na casa de número 100, numa curta extensão de casas que me pareciam enorme, mas que em verdade eram só duas fileirinhas naquele novo universo familiar.

Foi uma fase de grandes descobertas, o surgimento de amigos bem mais numerosos do que os três ou quatro da ruazinha anterior na Cidade Alta. E aí conheci dias de magia com os preparativos e realização da festa dos três reis.

A pracinha do bairro e o grande terreno em frente à igreja eram por trás da minha casa, onde eu fazia o mesmo caminho das muitas vezes em que acompanhei papai à padaria e à mercearia onde conheci as revistas de HQ.

Numa das casas que ladeavam a praça, todos os anos era montada uma pescaria, minha brincadeira favorita que permitia fisgar papeizinhos com os nomes dos brindes, no mais das vezes bolas, carrinhos e bonecos de plástico.

Morria de medo da roda gigante e, na contramão de alguns coleguinhas, cavalgava nos cavalinhos do carrossel que sempre era armado no mesmo lugar. E havia também a visita obrigatória ao tradicional presépio da igrejinha.

Aos olhos de uma criança, aquela festa era um evento belo e gigantesco, senão em infraestrutura (como constatei ao crescer), mas em fantasia, um estímulo cognitivo sem tamanho para aqueles meus dias de tanta felicidade.

Curtia adoidado nos dias de festejos a alteração do itinerário dos ônibus que faziam a linha pelo bairro, todos cruzando a minha rua, subindo e descendo em busca das Rocas. Na calçada de casa, manuseava os brinquedos pescados.

Na véspera do dia 6, o dia oficial de culto aos reis magos Gaspar, Baltazar e Belchior, papai chegava em casa mais cedo, no crepúsculo, e trazia os víveres para o feriado, incluindo o que eu mais esperava: um vidro de achocolatado.

Desconheço uma emoção mais intensa do que abrir a tampa do Toddy e ouvir o barulho do papel plástico cutucado por meu irmão com um garfo e denunciando o motivo da minha euforia: os soldadinhos ou índios da coleção.

Havia uma residência só, que eu lembro, dotada de um aparelho de TV, onde eu vi pela primeira vez uma programação, sentado no muro do jardim ao lado da loirinha que ali morava. Era "A Legião dos Esquecidos", na TV Excelsior.

Em Santos Reis conheci dois sentimentos fortes. Primeiro o desejo de sempre estar com aquela menininha, chamada Fátima. Segundo o vazio da morte com o desaparecimento do amigo Oscar.

Quando deixei o bairro e fui para as Quintas, dois anos depois estourou nos rádios uma canção de Tim Maia. Até hoje quando ela toca, me toca: A Festa de Santos Reis.