BLOG DO ALEX MEDEIROS

09/01/2020
Morreu a moça do Prozac

A jornalista americana Elizabeth Wurtzel tinha a idade maldita dos ídolos controversos do mundo pop quando resolveu ser também escritora com a publicação do livro "Geração Prozac". Era 1994 e ela estava com 27 anos, o tempo ideal para bater as botas nas opções que Caetano cantou; de susto, de bala ou vício. Preferiu se agarrar a vida narrando as angústias da depressão que naqueles anos se instalara como fator sociocultural da sua geração.

Transportando uma autobiografia para a personagem principal, Liz, ela desnuda a alma afetada num relato duro e transparente, expondo a infância difícil, o caminho acadêmico turbulento em Havard, com apenas 18 anos, e toda a obscura e dolorida trajetória da depressão, o monstro neural que ataca sem aviso ou cerimônia, como disse um personagem de Hemingway, "gradualmente e depois rapidamente". Um ano após o livro, minha mãe se foi, devorada por esta que é a pior das doenças, que mata uma alma de dor.

Elizabeth Wurtzel faleceu na terça-feira, com apenas 52 anos, após uma batalha contra outra moléstia devastadora, um câncer que a consumiu na metástase a partir do seio. Morreu em Nova York, sua cidade berço e túmulo.

Ela deixou outros livros que também alcançaram sucesso de vendas e crítica, mas nenhum foi tão impactante e essencialmente basilar para estabelecer uma nova narrativa literária numa conjuntura incerta como foi aquela dos anos 90.

Com "Geração Prozac - Jovem e Deprimida na América, Memórias", o título original, Wurtzel sacudiu o mundo e abriu caminho para que muitas pessoas se agarrasse a alguma pilastra emocional para tentar superar a triste patologia.

Ao estender a alma rasgada no varal midiático, estimulou novas narrativas sobre o problema, e outras obras de outras mulheres (e homens) mergulharam no mesmo caminho, que, longe de ser autoajuda, foi um ponto de modulação.

O livro, que virou filme em 2001 (por ironia o ano que aterrorizou Nova York) com a atriz Christina Ricci (a exótica Vandinha da Família Addams), é um retrato ampliado de uma jovem pessoa em extinção também pelas drogas.

Elizabeth escreveu ainda "Cadela: em Louvor a Mulheres Difíceis" (98), "Mais Agora Mais Uma Vez: um Livro de Memórias de Vícios" (2001), e "O Segredo da Vida: Conselho do Senso Comum Para Mulheres Incomuns" (2004).

Em 2014, "Geração Prozac" ganhou uma segunda edição nos EUA. O tratamento do câncer reduziu o tempo para autógrafos e entrevistas. Ainda mais quando no ano seguinte a doença a obrigou a uma mastectomia dupla.