BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/02/2020
100 anos de Gilda

Há exatamente um século, em 12 de fevereiro de 1920, nascia Heleno de Freitas, o primeiro jogador do futebol brasileiro que reunia numa só pessoa o talento do craque, o charme do astro de cinema, a valentia de um gangster e a malemolência de malandro carioca.

Fora dos padrões de época, era culto, formado em Direito, pinta de galã e um temperamento na mistura de Almir Pernambuquinho, Edmundo e Romário. Heleno o foi nosso primeiro bad boy.

Encantava mulheres com seu físico e galanteios, e atraía homens com jogadas incríveis. Genial e genioso, ao tempo que dava dribles desconcertantes também trocava sopapos, com um espírito conflituoso e um corpo atacado pela sífilis, um fantasma que o acompanhou até à morte.

Disse dele Armando Nogueira: "O futebol, fonte das minhas angústias e alegrias, revelou-me Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios do mundo".

Atuou no Fluminense, Madureira, Vasco, Boca Juniors, Santos Junior Barranquilla, América-RJ, mas foi no Botafogo onde construiu em 8 anos a mística do seu nome, defendendo também por 4 anos a seleção brasileira.

A estampa de "latin lover", sempre bem vestido, os cabelos engomados com gel e dirigindo carrões foi mais que suficiente para gerar comparações com a estrela americana Rita Hayworth, que em 1946 interpretou a vedete Gilda.

A bela mulher, sensual, tipo fatal, pronta para a aventura e para a vingança, foi um prato cheio para as torcidas contrárias. Rubronegros, cruzmaltinos e tricolores logo trataram de batizar o matador bonitão do Botafogo de Gilda.

No cartaz do filme, a chamada "Nunca Houve uma Mulher como Gilda" provocou paixões pela diva de Hollywood em todas as partes do mundo. O mesmo acontecia com a figura de Heleno dando seus shows nos gramados.

O apelido, evidentemente, era uma denunciadora provocação com sua visível vaidade, mas que ele tirava de letra, assumia com muito sarcasmo e muitas bolas nas redes adversárias. O gramado era um tablado a dançar os zagueiros.

Os mais distintos intelectuais também foram enfeitiçados pelo futebol e pelo comportamento de Heleno. O historiador e poeta uruguaio Eduardo Galeano, ao assisti-lo, o chamou de "Cara de Rodolfo Valentino e humor de cão raivoso".

Quando foi jogar numa liga pirata da Colômbia, criada por milionários rebeldes, e onde estava também o gênio Alfredo Di Stefano, ele chamou a atenção do escritor Gabriel Garcia Marquez, que o definiu "autor de romances policiais".

Conterrâneo do craque, o mineiro Roberto Drummond disse que Heleno era "aquele que aqui na Terra foi um deus, que multiplicou gols como se fossem peixes". Até o poetinha Vinícius de Moraes, craque das letras, se encantou.

O autor de Garota de Ipanema se inspirou em Heleno para escrever "O Poema dos Olhos da Amada", homenagem ao casamento do jogador com a filha de um diplomata seu amigo. Depois virou música gravada na voz de Sílvio Caldas.

Na passagem pelo Boca Juniors, assanhou corações de belas hermanas e dizem ter provocado instintos libidinosos até em Eva Perón, que mesmo sem provas cabais não elimina sua fama de mulherengo e conquistador sem limites.

Viveu entre o sétimo céu e o primeiro inferno, ganhou grana, se antecipou em duas décadas ao irlandês George Best, mas foi vencido pela bebida, drogas e pela sífilis, a pantera que foi companheira inseparável, a la Augusto dos Anjos.

Único talento comparado ao maior craque da época, Leônidas da Silva, foi chamado de "diamante branco", o avesso cromático. E na Colômbia, uma estátua em Barranquilla simplificou sua grandiosidade no título "O Jogador".