BLOG DO ALEX MEDEIROS

16/05/2016
Os espelhos de Cauby

Quando Ben Jor ainda era Jorge Ben, em 1980, declarou que Cauby Peixoto era o eterno amante da Conceição, anexando ao comentário uma reflexão shakespeariana: "ser ou não ser Cauby, eis a questão". E o maestro Tom Jobim sentenciou: "Cauby é ótimo!".

Foi minha mãe quem estabeleceu na minha maneira de ver e escutar o cantor Cauby uma atemporalidade misteriosa que eu nunca compreendi direito. Não entendia como uma mulher nascida em 1922 foi tiete na juventude de um cara nascido em 1931.

Lembro-me da meninice ouvindo mamãe expressar seu culto ao seresteiro que gravou seu primeiro disco aos vinte anos, em 1951, quando nasceu o primeiro filho dela, meu mano Graco. E aí cresci sem acreditar que Cauby fosse apenas nove anos mais novo.

A cronologia sempre pareceu não operar em Cauby seguindo as regras clássicas da física, sua própria estampa foi exposta ao longo das décadas como um truque de espelhos na maquiagem extravagantemente calculada, e sem a quase escatologia de Serguei. O truque de Dorian Gray.

O aniversário dos 25 anos de sucesso, por exemplo, foi marcado com um disco da Som Livre lançado 4 anos depois. Aliás, um puta álbum com canções compostas só para ele por Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto Carlos e Tom Jobim, entre outros.

Se fosse possível um teste de DNA na discografia do rock brasileiro, Cauby Peixoto teria definitivamente declarada a paternidade do gênero em solo nacional, quando em 1957 gravou a canção "Rock and Roll em Copacabana", composta por Miguel Gustavo.

Quando comecei a gostar de rock, no princípio dos anos 1970, via em Cauby a antítese musical dos rapazes remanescentes da Jovem Guarda e dos cabeludos das bandas britânicas. E fazia muxoxo da satisfação de minha mãe com a voz dele no rádio.

A ignorância de roqueiro iniciante nem de longe desconfiava que exatamente no ano do meu nascimento, 1959, a TIME e a LIFE, principais revistas da pátria do rock, o batizaram de "O Elvis Presley brasileiro", após sua temporada de 14 meses nos EUA.

O pesquisador Ricardo Cravo Albin diz em seu famoso dicionário da MPB que entre 1953 e 1954 Cauby já havia alcançado tamanho estrelato no rádio, ao ponto de superar um fenômeno chamado Orlando Silva. A tietagem se espalhou pelo país afora.

O assédio feminino tomou proporções que provavelmente só se viu igual no Brasil dos anos 1960 com Roberto Carlos e Ronnie Von, ídolos e rivais do momento histórico em que o rock plantado por Cauby começava a vestir tons verdes-amarelos com o iê-iê-iê.

O ano da gravação do primeiro rock tupiniquim também é consagrador para o estilo romântico de Cauby, ao gravar monstros sagrados como Noel Rosa, Ary Barroso, Mário Lago, Custódio Mesquita, Silvio Caldas, João de Barro, Dunga e Orestes Barbosa.

Atravessou a história da MPB com uma onipresença jamais vista em outro artista, interpretando de forma inigualável os maiores clássicos do samba, da bossa nova e até do tropicalismo, confirmando aquela atemporalidade que mamãe me passou sem querer.

Ouçam com ele "Chão de Estrelas", "Ronda", "Alguém me Disse", "Molambo", "Negue", "Nada Além", "Viola Enluarada", "Eu Seu que Vou te Amar", "Perfídia", "Bastidores", "Anos Dourados", "Valsinha"... Ouçam e tentem conter o arrepio.

Quem haverá de questionar a palavra do rei Roberto Carlos, que decretou 35 anos atrás: "Para mim, o maior cantor do Brasil é Cauby Peixoto. Eu sou apenas um intérprete". Já a mim, basta a paixão da minha mãe quando jovem. Eu me lembro muito bem.