BLOG DO ALEX MEDEIROS

11/11/2016
E deus cansou

Quando li ano passado a notícia de que o universo parou de fabricar estrelas e que em 13 bilhões de anos de produção, o forno do Cosmo diminuiu seu fogo atômico e praticamente fechou a fábrica, lembrei-me de uma velha tese sobre mundos dentro de mundos.

Há quem diga, não sei ao certo se homens da física quântica ou gente da ficção científica, que o contexto do universo se reproduz "ad infinitum" nas estruturas materiais, desde uma galáxia inteira a um micro organismo unicelular.

Assim como um sistema solar é composto de um padrão de corpos, gases e ácidos que formam um todo, também um planeta, um asteroide, um pedregulho ou um corpo humano tem seu conjunto de partes fundamentais para o seu equilíbrio físico.

Tal tese, ao que parece sem tantos fundamentos científicos, não é a mesma coisa da ideia dos universos paralelos, formulada pelo americano Hugh Everett no começo dos anos 50, nem tem semelhanças com a teoria das cordas e seu mundo de 11 dimensões.

Foi observando a trajetória da luz gerada pelas galáxias nos confins do universo, que chega até à Terra com milhares ou milhões de anos depois da morte dos astros, que os cientistas perceberam uma provável fadiga na maternidade cósmica das nebulosas.

Para quem fundamenta a concepção do universo por vias religiosas, a descoberta sugere o cansaço de deus no ofício de arquiteto do mundo e que se supunha eterno. Como se o dono de tudo estivesse de saco cheio das tantas estrelas sem o brilho do princípio.

Na tese do mundo dentro de mundos, vejo na entressafra estelar a gênese da matriz responsável pelo que também ocorre nas esferas inferiores. No âmbito político e cultural de um pequenino planeta azul, a carência de novas estrelas é hoje uma realidade.

Na música, o modelo Beatles foi copiado ao longo das décadas, dos Monkeys aos Menudos até ao Restart; dos Rolling Stones viemos parar no One Direction; Tom Jobim deu lugar a Carlinhos Brown e Elvis Presley foi substituído por Justin Bieber.

Foi-se o tempo do britânico universal Charlie Chaplin. Agora é o humor nebuloso do seu conterrâneo Sacha Baron Cohen. Vocês que choraram na morte de Chico Anysio, riam no besteirol do Rafinha Bastos. Jerry Lewis já deu lugar ao Jack Black.

O cinema perdeu seus grandes astros e ganhou estrelinhas decorativas, saiu Marlon Brando entrou Bem Affleck; a dramaturgia nacional trocou Paulo Autran por Toni Ramos, Tonia Carrero por Juliana Paes, Paulo Gracindo por José de Abreu.

Na fadiga de deus o forno de estrelas esfriou e o infinito ganhou efemeridade. Na política, qualquer Luiz Inácio se compara a JK e basta um playboy mineiro no patamar de Getulio Vargas. No legado de Winston Churchill o lenga lenga de Barack Obama.

Cadê o brilho filosófico? Enfiaram na estante um Leonardo Boff no espaço onde estava Nietzsche, jogaram um tal de Slavoj Zizek na gaveta destinada a Umberto Eco. Querem vender-me o miolo mole de Noam Chomski numa falsa capa dura de Gay Talese.

Estrelas mudam de lugar, eu sei, como cantou o rei Roberto Carlos; mas não precisava mudar tanto ao ponto de um apagão generalizado. E não adianta tentar aclarar-me as ideias com argumentos de reciclagem cósmica, de renovação estelar de gerações.

Podem ficar com Maria Gadu que eu ficarei com a originalidade de Cássia Eller; não me venham encher com Lady Gaga que eu estou repleto de Janis Joplin; agradeço a Adele que me indicaram, mas já não cabe em mim outra que não seja Billie Holliday.

No berçário dos astros em que nasceu Wilson Simonal, não é qualquer Alexandre Pires que se deita; no meteoro que trouxe Noel Rosa não havia células de Belo ou de Netinho; deus preferiu não manchar com algum Vavá o santo nome de Paulinho da Viola.

Até que pode ser processo natural, mas não creio que esteja certo o apagar de astros como Leonard Cohen, que nos deixou hoje, para surgir Chris Brown. Ou que o fim de Marília Pêra seja o começo de Grazi Massafera. O carbono de John Lennon não materializou em Bruno Mars. Não mesmo.

Tempo sem estrelas esse em que vivemos, e comprovado pela ciência. Evidente que os defensores da vida atual haverão de acusar-me de sofrer um surto de estrelismo nostálgico. Que se danem! Não sou eu quem vai iluminar seu céu escuro.