BLOG DO ALEX MEDEIROS

11/11/2016
So long Leonard

Leonard Cohen, cantor, poeta e compositor canadense que de forma sintética misturou espiritualidade e sexualidade em grandes sucessos como "Hallelujah", "Suzanne" e "Bird on a Wire", morreu ontem aos 82 anos.

Pouco tempo atrás, escrevi aqui uma crônica narrando o episódio de rara amorosidade em que Cohen enviou por um amigo uma carta para sua eterna musa, Marianne Ihlen, que estava no leito de morte, na Noruega.

Ao ler a carta, o amigo do poeta disse ter sentido a mão frágil da moribunda apertar a sua, como quem busca num ponto imaginário uma fenda real para chegar até o amor distante. Marianne faleceu pouco depois da leitura.

Durante uma vida, ela foi inspiração para canções que se tornaram hinos de várias gerações; Cohen derramava carinho e paixão nos poemas que se tornariam composições musicais do seu vasto e qualificado repertório.

"Bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei muito em breve. Sabes que sempre te amei, mas não preciso me alongar-me, porque já sabes tudo isso".

A balada "So Long Marianne" é uma das mais belas canções já feitas para exprimir o amor por uma mulher. "Eu preciso do seu amor escondido... Estou postado num precipício e sua tênue teia de aranha /está atando meu tornozelo a uma pedra", cantou ele.

Seu "Hallelujah", composto em 1984, se tornou um hit de cultuação e foi gravada por mais de 300 artistas e ganhou uma versão consagrada em 1994 pelo americano Jeff Buckley, após beber nos arranjos de John Cale.

Alguns fãs nem sabem, mas Leonard Cohen decidiu fazer música porque não conseguia sobreviver apenas como poeta. Os primeiros anos com Marianne, numa ilha grega, foram de extremas carências materiais, até alimentícias.

Muitas vezes comparado a Bob Dylan na influência exercida sobre tantos artistas, ganhou notoriedade nos anos 60 durante o resgate da música folclórica, exatamente aquela que Dylan usou para abrir portas de popularidade.

Naqueles anos, ele fez parte de eventos na companhia de Joni Mitchell, Joan Baez e do próprio Bob Dylan que dali a pouco contrariaria os fãs tradicionalistas aderindo às guitarras do rock ‘n' roll no rastro dos Beatles.

Certa vez o ator Kris Kristofferson declarou que quando morrese queria as linhas iniciais da canção "Bird on the Wire", de Cohen, na lápide do seu túmulo. Sua voz cavernosa faz da bela balada uma oração de acompanhar defunto.

E seria, aliás, perfeita agora para o epitáfio do próprio compositor: "Como um pássaro em um fio / como um bêbado em um coro de meia-noite / eu tentei em meu caminho ser livre", discorre a poesia como autodefinição de Cohen.

Assim como Dylan, a sua voz sem a limpeza cristalina dos bem afinados serviu perfeitamente para nos tocar de emoção. E enquanto envelhecia, o tom grave ganhava mais profundidade e poder de um cansaço que nos arrepia.

Tanto que em 1992, aos 58 anos, ganhou no Canadá o Juno Award (equivalente local do Grammy) como vocalista do ano. Há pouco tempo, Bob Dylan disse à revista New Yorker que Cohen era "profundo e verdadeiro".

Disse ainda o novo Nobel de Literatura: "Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim, juntamente com suas letras, são sua maior genialidade. Ele é surpreendentemente melódico".

Dylan também afirmou que "até onde eu sei, ninguém mais se aproxima disso na música moderna", obviamente se omitindo por elegância. Oito anos antes, em 2008, Cohen ganhou uma estrela no Rock and Roll Hall of Fame.

Ao longo da fértil vida poética, sofreu crises de depressão que tentava curar com drogas e bebidas alcoólicas. Muitas vezes chamado pessimista, dizia que pessimista era quem esperava chuva: "eu me sinto encharcado de pele".

Agora, quando a pele desce à terra, sua alma sobe ao espaço, de mãos estendidas para reencontrar as mãos e o amor da musa Marianne. E nós ficamos, encharcados na ternura melódica das suas apaixonadas canções.