BLOG DO ALEX MEDEIROS

11/10/2017
E das trevas, Messi se fez luz

Era só um jogo de uma seleção tradicional contra um adversário mediano. Mas, assim como os filmes tipo B que são iluminados pela presença de um grande ator, o confronto Argentina vs Equador também estava recheado pelo roteiro dramático que sempre requer um gran finale.

E se há um elemento peculiar na composição social e cultural dos argentinos, é a dramaticidade, a capacidade de saltar da angústia para o êxtase num compasso de tango. Com apenas dois minutos, dois equatorianos entraram na área platina fazendo linha de passe por via aérea, a bola planando sobre as cabeças até pousar nas redes do goleiro estupefato.
Não. Mas não era somente um jogo entre um grande e um pequeno. Era o ensaio final para o último ato da ópera lúdica a ser montada em palcos da Rússia, a pátria dos grandes espetáculos das artes cênicas. E a Argentina ainda tinha Messi, seu bailarino solitário prestes a soltar a porção Nureiev para fazer delirar a plateia.

E aí ele bailou. Uma, duas, três vezes, botando luz na penumbra do futuro, tirando seu povo das trevas da heresia e acendendo uma nova esperança. Sua própria redenção no universo de incredulidade que sempre se abria para questionar sua genialidade também no âmbito da seleção nacional.

Três gols para garantir presença na Copa do Mundo, para espantar desconfianças internas, para estabelecer novo recorde pessoal (maior artilheiro da história das eliminatórias sul-americanas), para ocupar as manchetes do planeta (coisa que com o Barcelona ele faz há mais de uma década), para apagar a mentira vizinha sobre necessitar da vitória do maior rival. Nunca houve tal dependência de uma derrota chilena em São Paulo.

O técnico Sampaoli, involuntariamente parodiando o jornalista brasileiro Fernando Calazans em relação a Zico (se não ganhou uma copa, azar da copa), declarou: "Messi não deve um Mundial à Argentina, o futebol é que deve um Mundial a Messi). Até a mídia do Brasil entrou na catarse planetária, mesmo após uma vitória da Canarinho sobre o Chile por 3 x 0.

Na Argentina, em questão de minutos, a imagem de Messi ganhou proporção maradoniana, uma quase heresia em se tratando de um jogador que jamais jogou em time local e não experimentara a idolatria do outro camisa 10 responsável pela segunda copa do país. "Ao nível de Dios", estampou o diário Olé, num trocadilho que sugere a figura divina dos cristãos ou o próprio deus Diego.

O jornal Página 12 nem pensou duas vezes antes de mexer com a religiosidade representada por um papa argentino. Colocou a cabeça de Messi num Jesus cercado de seguidores e escreveu "Messias". O Canchallena, pertencente ao diário La Nacion, manchetou "Uma lenda escrita com maiúscula: MESSI".

Na Espanha, acostumada com a genialidade do craque, os diários esportivos não economizaram na louvação. O AS cit ou manchetes pela Europa afora e escreveu "Messi provoca êxtase mundial". Tudo comprovado também nas postagens das redes sociais. Em vários países o jogador do Barcelona foi assunto principal no Twitter e outras plataformas. Celebridades dos esportes e do showbiz postaram enaltecimentos ao pequeno gigante de Rosário.

Na Inglaterra, a revista Four Four Two: "A realidade alternativa de Messi". Na França, o jornal L'Equipe: "O bem anunciado". Na Alemanha, o Sport Bild: "Messi carrega a Argentina pra Copa". Na Itália, a Gazzetta dello Sport: "Argentina aos pés de Messi". Em Portugal, o diário A Bola destacou a banda U2 saudando Messi no show de Buenos Aires e estampou "E Messi abriu o livro".

Pois é. O livro de Messi é um romance épico que não para de ganhar páginas. Desde 2005 ele está a surpreender o mundo, quase que semanalmente, com jogadas e feitos espetaculares, numa profusão de encantamento que parece jamais ter intervalos. Ontem, no dia 10 de 10, o cara da camisa 10 acrescentou mais um capítulo mágico em sua história. E vai à Copa da Rússia movido pela essência daqueles que são filhos dos deuses da bola. Até os brasileiros sabem disso. Já viram ele carregar a Argentina para a final de 2014 em solo pátrio.